A onda de abóboras chegando numa praia de torradas/Acervo da Autora Lembrei da desvalorização que sofre o ato de cozinhar e outros trabalhos cotidianos importantes para o aconchego e a sobrevivência. Sibélia Zanon* Aos nove meses, a menina se recusa a comer o purê de mandioquinha que a mãe fez. — Você colocou sal? E manteiga? – Pergunta a avó. A mãe faz que não e o diagnóstico é fácil. Ninguém deseja uma vida sem tempero. A vida sem sal é lagoa e todo mundo precisa de um cheiro de maresia, até a menina que desconhece o mar. Quando a vida é por demais mansa, algo por dentro pede a onda. Seja na paisagem, seja no prato, seja no balanço do dia. O mar, com seus movimentos irregulares, às vezes quebra imprimindo desenho na areia ou chicoteando banhistas desavisados. Mas, ele não precisa ser bravo, nem demasiadamente imprevisível, só precisa carregar sua pitada de sal. É esse sal que a menina pequena e as gentes grandes buscam no sabor dos dias. Às vezes, não contentes com o tempero que vem do mar, queremos o que vem das cordilheiras. Sonhamos o Himalaia porque imaginar que a felicidade está distante legitima o sofrimento. Muitas vezes, porém, somos desafiados a fazer uma viagem interior e buscar o Paquistão do lado de dentro. Como experienciar canela e açafrão sem sair do lugar? Como temperar os dias? Estava entediada outro dia cortando a abóbora em cubos pequenos para assar. A tarefa parecia comprida e pouco produtiva. Comecei a me olhar no espelho do tédio com todos aqueles pensamentos de tempo parado. Mas, no espelho vi que eu não estava parada, eu estava fatiando. Também a abóbora não estava parada, ela estava se transformando. Percebi no espelho a potência que tinha nas mãos, a capacidade de criar e movimentar. E vi também a potência do fruto com seu reflexo de sol, sua carga de histórias de terra e água, de mãos trabalhadoras, de nutrientes. Pensei nos cardápios que seriam enfeitadas por aqueles cubos de abóbora temperados com canela, gengibre, azeite, ervas e sal. Lembrei da desvalorização que sofre o ato de cozinhar e outros trabalhos cotidianos importantes para o aconchego e a sobrevivência. No espelho, vi que o tempero dos dias não está no Himalaia. Modo de fazer: Cortar a cor outonalEm pequenas fraçõesPara acordar os diasQue ainda virão E assim coloridosEm cada estaçãoCom alecrim e canelaSol, sálvia, fruição Os dias acalentarão Terrosos sabores Do solo, o fruto são Nos devires, a bênção *** *É jornalista, escritora e autora de Espiando pela Fresta