Ilustração de Ligia Zilbersztejn

Com sorte, o frango de sábado ficou pronto no domingo. O melhor da minha vida.

Matheus Lopes Quirino

A panela que borbulha no fogão de quatro bocas incendiárias solta um perfume de fumegar o estômago. Eu o vejo cortando com tamanho zelo os pedaços de frango marinados noite adentro debaixo daquele papel metálico. Os quiabos estão já lavados, separados, escorridos em uma travessa com furos, no canto da pia. Ele sacode os quiabos enquanto eles dançam, antes do encontro com o frango que é flambado ali do lado. Eu observo quando eles escorregam para o teflon quente, eles fazem barulho, perfumam as tiras de frango marinadas no limão.

Eu te observo desossando uma sobrecoxa, algum dia, com tanto cuidado que suas têmporas ficam marcadas, seus caminhos são evidentes. Você limpa o corte, tira pele, nervos, a carne mais macia é a que vai brilhar. Enquanto isso, os tomates estão borbulhando, depois de você amassá-los; a polpa está magérrima, sem sementes ou geleias. Você corta em três o tomate italiano, seu preferido. O Salada não agrada, porque ele é gordo demais. O Rasteiro é esguio, o Holandês, caro, o Cereja é para os detalhes, mas não tão importantes assim.

Eu observo com água na boca você passando os pedaços marinados do frango na farinha, fico hipnotizado com o aroma da carne flambada no conhaque. A pira que sobe, corpulenta, me impressiona. Parece que você sabe o que me chama atenção nesse show, desde o corte do pedaço de manteiga, que talvez você planeje, talvez não, mas as coisas boas levam manteiga, você diz. Manteiga, creme de leite fresco, leite de litro, jamais de caixinha. Ervilha torta dentro da caminha, sem estar avulsa. Ovos caipiras muito alaranjados, só os alaranjados.

Você passa as prateleiras com curiosidade e cuidado, observo de longe enquanto você aperta as laranjas, os tomates, olha entre as folhas das verduras, sente o cheiro dos pedaços de bacon, avalia o pão daqui, e o de lá. Você sabe quais são as melhores mangas de São Paulo só pelo tato. Sabe dar jeito na berinjela, mesmo escrevendo ela com g – e eu digo que está certo dos dois jeitos, porque está mesmo. Numa das últimas vezes que jantamos, depois de tantas gostosuras observadas, acertei em um sanduíche, feito a quatro mãos.

Frango com quiabo, por Ligia Zilbersztejn

Aquele pedaço de pernil estava bonito, sem gordura, um rosa brilhoso, viçoso. Foi quase um quilo e meio. Ele foi na pressão com cachaça, o molho de tomate borbulhava na outra boca. E na padaria da rua de cima, a melhor ciabata da nossa vida saiu tão quente, só para pousar na mesa da nossa cozinha. Tudo isso virou um ragu suíno na ciabata dos deuses. Mas lembro com carinho do frango com quiabo. A dança dos quiabos é linda, esparramam-se com elegância, como num tango argentino.

Na noite de sábado, adiamos. O gás acabou, ficamos quase a ver navios. Domingo então amanheceu nublado. Comida fresca. Vi os quiabos saltarem quase vivos na tábua, o molho do frango se lambuzar de suco de laranja. Cada mordida foi um final feliz.

E estava eu do outro lado da mesa lembrando de como você fazia aquilo, para aguçar os meus sentidos, para me deixar repleto de desejo e repetir. Para olhar pra você que comia em silencio na minha frente, e os carros da rua cortavam o vento porque o sinal estava aberto. E as árvores balançavam. Os quiabos estavam escorregadios, o frango no ponto perfeito.

Minha cabeça não parava de pensar em você na beira da panela, quieto, pensando em como seria nosso último dia antes da viagem. Estava de mala cheia, estômago vazio, coração escorregadio, esperando pelas suas mãos largarem os talheres e tocarem nos meus dedos. Eu como rápido demais para poder te observar, mas às vezes você finda mais rápido e ainda tem tempo de repetir.

Com sorte, o frango de sábado ficou pronto no domingo. O melhor da minha vida.

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Publicado por Matheus Lopes Quirino

Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino