Temperos
gastronomia, culinária, filosofia de vida, comportamento
Nada como “gourmetizar” o lanchinho da tarde. E ainda alegar que é natural e faz bem para saúde. Sem conservantes nem acidulantes. Mas com alguma fantasia. Nem que seja apenas um pequeno disfarce. Maria Paula Curto * Minha mãe sempre dizia que o que torna uma comida saborosa é o molho e o tempero. Que sabendo usar os condimentos corretos, qualquer comida fica maravilhosa. Tem até aquele famoso argumento de todo bom guloso – e aqui eu me incluo, podem estar certos disso – de que sabendo temperar, eu mando até pedra pra dentro. Bem, pedra, pedra eu não sei, mas que eu já engoli um monte de gororoba passando um pouco de maionese, eu engoli. Confesso. E ainda tive que sorrir. E deixar o orgulho na gaveta do freezer. Imaginem um macarrão sem molho. Só cozidinho. Não rola, rola? Pode ser a melhor massa do mundo, a receita da nona mor do Bexiga. Não adianta. Só a pasta não se sustenta. Vai precisar de um molhinho. Nem que seja um bem básico: tomates frescos. Um pouco de azeite. Se puder incluir um manjericão, algumas folhinhas apenas, hummm, fica ainda melhor. Um pouco de perfume não faz mal a ninguém. Noz moscada. Ah, a noz moscada. Extremamente versátil, fica bem em doces e salgados. E como é generosa. /Foto: Divulgação Orégano? Não. Esse é melhor deixar para a pizza. Ou para incrementar aquele queijo quente feito de última hora num fim de domingo preguiçoso. E ainda podemos aproveitar e ralar um pouco de gengibre para bater com o suco de laranja que compramos no hortifruti e já está com a data de validade por vencer. Nada como “gourmetizar” o lanchinho da tarde. E ainda alegar que é natural e faz bem para saúde. Sem conservantes nem acidulantes. Mas com alguma fantasia. Nem que seja apenas um pequeno disfarce. Alecrim? Deliciosamente perfumado e super combina com batatas assadas. E se assamos com casca e tudo, temos um belo – e sustentável – petisco: batatas rústicas. Tudo bem que a batata é puro carboidrato e o endocrinologista falou para evitar. Mas ao menos não leva fritura nem é de saquinho. Pode até engordar, fato, mas quem disse que eu preciso ter o corpo ideal? Prefiro batalhar por um corpo real. E uma vida mais saborosa. Um toque de ousadia faz parte. E, como diria Guimarães Rosa, o que a vida pede da gente é coragem../ Foto: Reprodução/Lunamarina. Noz moscada. Ah, a noz moscada. Extremamente versátil, fica bem em doces e salgados. E como é generosa! Realça o sabor dos ingredientes sem se sobrepor a eles. Uma alma verdadeiramente nobre! Infelizmente, ela não aparece em muitas receitas. Uma pena que esse tipo de nobreza – saber se esconder nos bastidores para fazer brilhar o que está no palco – seja tão raro de encontrar nesse mundo. E tão pouco valorizado… De forma quase que diametralmente oposta temos a pimenta. Aparecida e vaidosa, ela está em muitas receitas. E sim, verdade, ela dá um “up” nos pratos. Mas tem que ser usada com parcimônia e extremo cuidado. Qualquer passo em falso pode ser fatal. Ela é danada. Rouba a cena. E gosta de brilhar sozinha. Basta uma pitada a mais e lá se foi nosso almoço para o lixo. Às vezes, sua atuação é tão intensa que chega a provocar lágrimas. E um calor que vai subindo pelo esôfago, pelo pescoço, pelas orelhas, queimando tudo que vê pela frente. Pimenta é “fogo que arde sem morder”… Talvez seja por medo de incêndio que alguns preferem nem arriscar. E a deixam de lado. Mas aí a coisa pode ficar fria e covardemente sem graça. Um toque de ousadia faz parte. E, como diria Guimarães Rosa, o que a vida pede da gente é coragem… Pode até provocar uma leve ardência. O suficiente para provar que ela passou por ali. Ela deixa marcas. Ah, quer saber? Eu adoro essa tal de canela. Eu gosto de quem não passa a vida em branco./ Foto: divulgação Outra que costuma gerar polêmica é a canela. Essa também não se esconde. Seu gosto marcante aparece mesmo. Sem dó nem piedade. Alguns amam. Outros odeiam. A verdade é que, diante dela, ninguém fica indiferente. Ela exige posicionamento. Eu gosto dessa firmeza. De quem não se oculta, não se intimida, não se ausenta, não se cala. Se você a quer, vai ter que encarar. E se prepare, pois ela não dá moleza. E pode até provocar uma leve ardência. O suficiente para provar que ela passou por ali. Ela deixa marcas. Ah, quer saber? Eu adoro essa tal de canela. Eu gosto de quem não passa a vida em branco. E não podemos esquecer dele, o básico do básico, e talvez o mais importante de todos: o sal. Sem ele, decididamente, nenhum prato se sustenta. Nem mesmo sobremesa. Afinal, toda massa de bolo que se preza leva uma pitadinha de sal. Ele é tão poderoso que realça até o sabor do seu maior adversário: o doce. Já imaginaram que potência é essa? Valorizar o que lhe é contrário? Tiro o meu chapéu para o sal. Esse se garante. Potente. Necessário. Como a vida. Ops, mas eu estava falando de comida, não estava??? *Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.
Texto originalmente publicado em Revista Fina