06

Mai23

Patrícia

Aquele ponto de interrogação no título deste post é a minha dose de esperança no futuro. É considerar que, por obra e graça de algum espírito bom, o bom-senso ainda pode prevalecer. Mas é uma esperança pequena, a vida e a realidade têm-me demonstrado vezes sem conta que bom-senso é algo que não abunda.

Quando, há pouco mais de três anos, a pandemia (acabou oficialmente ontem, sabiam?) mandou a maioria dos trabalhadores para casa, eu já fazia teletrabalho com alguma regularidade. A empresa onde trabalhava tinha, há anos, instituído algumas regras que nos permitiam trabalhar em casa de vez em quando. Basicamente podíamos trabalhar em mobilidade 5 dias por mês (não mais que 3 seguidos, não à segunda e sexta) desde que o trabalho fosse compatível e a chefia aprovasse. Para períodos maiores, devidamente justificados, também se conseguia autorização com alguma facilidade. Trabalhar de casa, sozinha, foi uma aprendizagem. Nos primeiros tempos sentia-me de "castigo", não sabia muito bem como gerir a distância para com os outros colegas e não usava muito este direito. Mas a vida acontece, aprendemos e adaptamo-nos e nos anos antes da pandemia já usava esse direito com bastante frequência. Entretanto mudo de empresa 7 dias antes da pandemia ser declarada e dia 13 de Março estou a trabalhar de forma 100% remota. O teams revolucionou a comunicação entre colegas e o teletrabalho revolucionou a minha vida laboral.

O tempo de confinamento foi simultaneamente um dos piores e um dos melhores períodos da minha vida. Estar em teletrabalho ajudou imenso. Na verdade, até profissionalmente, foi estar em teletrabalho que permitiu um enorme crescimento. Hoje olho para trás e pergunto-me como consegui fazer tudo o que fiz naqueles anos sem dar em louca e sei que a resposta está no teletrabalho. Sempre tive horários durante a pandemia mas, confesso que não os cumpri - trabalhei mais tempo com menos custos pessoais que estando no escritório. Rapidamente a minha rotina se estabeleceu e incluía um café e algum tempo de leitura todas as manhãs antes de começar a trabalhar - e isto incluía os dias em que "entrava" às 08h. O privilégio que é trabalhar com roupa confortável e ter tempo para ler de manhã é impagável.

Muitas vezes também lia um bocadinho à hora do almoço e ao fim da tarde. Não precisava pegar no carro se não quisesse, não precisava falar com pessoas se não me apetecesse e se estivesse de muito mau humor conseguia controlar-me em privado - geralmente antes de descarregar em alguém.

Quando voltámos para o escritório descobrimos (a mudança não foi apenas minha mas de todo o departamento) que a nova empresa não permitia o teletrabalho - aliás, não o permite até hoje. Uma vez que não consigo imaginar desvantagens para uma empresa em ter funcionários de forma total ou parcial em teletrabalho, só posso concluir que é o facto de parecer que o teletrabalho traz mais vantagens para o trabalhador que para o empregador que faz pender a balança para o escritório. 

A mera possibilidade de alguém estender/apanhar a roupa em horário laboral (e todos nós sabemos o jeito que isto dá) deve fazer empregadores estremecer. Toda a gente sabe que quem não trabalha em casa também não trabalha no escritório - mas pelo menos está sentado com o rabo na cadeira as horas que lhe pagam (deve ser uma espécie de castigo). A ideia de que a malta pode poupar em combustível, desgaste de carro ou tempo de trânsito não diz muito a quem tem carro da empresa e isenção de horário. O ambiente e a poluição são questões teóricas que fazem parte das preocupações escritas mas não das praticadas pelas empresas. 

Poder trabalhar de qualquer lugar é algo que, para a maioria de nós, faz sentido e abre possibilidades. Poder apoiar os pais, aproveitar a casa da aldeia, mudar-se para um sítio mais calmo, gastar o dinheiro do gasóleo a passear em vez de fazer o absolutamente execrável caminho casa-trabalho são opções que nos agradam e que em nada prejudicariam a empresa onde trabalhamos. Na verdade, mesmo sem ter em conta questões de poupança de água, luz e telecomunicações no local de trabalho, ter trabalhadores mais felizes é ter trabalhadores mais produtivos. Mas claro que isso não é tido em conta e se for pesa no prato da balança do "escritório".

Acho que estamos a perder uma oportunidade e felicito as empresas que têm uma mente mais aberta - aliás, serão estas que conseguirão ter os melhores trabalhadores porque a possibilidade de não pôr um pé no escritório já é um factor decisivo para a miudagem (e para outros não tão miúdos). E invejo aqueles que têm coragem de fazer um ultimado - "ou me deixam trabalhar de casa ou vou embora". Ainda não estou nessa fase porque "coisas" (que implicam não me poder mudar neste momento) mas daqui a um tempo não sei se essa não vai ser a minha decisão.