No aniversário que celebrei no ano passado, meus pais deram um pacote misterioso. Quando abri, deparei-me com um livro que não via desde a minha Antiguidade Clássica: “Emília no País da Gramática e Aritmética da Emília”, do Monteiro Lobato. Ao invés de comprar um exemplar atualizado, meus pais consertaram e encaparam o volume que me pertencia.

Quando toquei o livro, foi como se tivesse encostado em uma parte do corpo. Foi familiar, sensação de quem tinha voltado para casa. Ao perguntar o motivo do presente, meus pais disseram que passei boa parte da minha infância com ele nas mãos, e achavam oportuno que o livro agora retornasse para a minha guarda.

Capa Monteiro Lobato

Levei mais de oito meses para abrir o livro. Uma das poucas coisas que sei a meu respeito é que não sigo as regras do Tempo, o meu Tempo é diferente dos outros.

Dezenas de leituras passaram diante dos meus olhos desde o Monteiro Lobato. Muitos foram os livros que li, muitos estilos, muitos clássicos, muita teoria, muitos autores diferentes. Muitas vozes na cabeça, misturando-se com filmes, com propagandas, com a linguagem invisível das fotografias e dos quadros e das estátuas. Esperava que a minha leitura fosse permeada de descrédito, que os olhos da maturidade destruíssem os castelos de nuvens da infância.

Esperava decepção e, quando percebi, estava novamente entrando no País da Gramática em cima do rinoceronte Quindim (não consigo ver quindins sem pensar em rinocerontes), atravessando o Mar dos Substantivos, passeando no Bairro dos Adjetivos, tomando café na Casa dos Pronomes e invadindo o Acampamento dos Verbos. Voltei a ver a aritmética e lembrar detalhes de matemática que achava que tinha esquecido. Sem contar que a Emília me fez largar muitas risadas com a sua total falta de educação e personalidade forte.

Eis a magia da leitura. Não importa quanto tempo se passe, ela é sempre nova. Um homem não atravessa o mesmo rio duas vezes (não é, Heródoto?), assim como um leitor nunca lê o mesmo livro duas vezes. Ainda assim, ele pode encontrar, nas curvas e esquinas do livro, o leitor que um dia foi. Se existe uma maneira de viajar no Tempo, é através da leitura. Se existe uma forma de encontrar outros escritores e leitores, é lendo os livros que eles percorreram, prestando atenção nas paredes do labirinto, nos desvãos das alamedas.

Vendo aquelas letras, eu conseguia quase tocar em outro Gustavo que lia o mesmo livro muitos anos atrás, quase pude sentir o cheiro do fascínio do outro leitor, o primeiro. Suspeito que gostamos ainda dos mesmos detalhes, suspeito que suspiramos nas mesmas partes, suspeito que ainda temos a mesma risada.

Como não podia deixar de ser, dentro do livro tinha um cartão – o qual eu, para variar, li somente agora, muito tempo depois do fato:

Cartão Monteiro Lobato

Não existe maior presente do que este – um resgate do primeiro leitor. Às vezes eu esqueço que meus pais me conhecem como ninguém (tanto conhecem que sabem que eu leria o cartão na hora certa, não no Tempo deles, mas no meu. Deixaram a surpresa plantada).

Em minha vida, já fui chamado de muitas coisas. Algumas boas, outras ruins. No entanto, ser chamado de “leitor” ainda é o maior elogio que me pode ser feito. Podem inclusive colocar na futura lápide, acaso me concedam uma.

Enquanto estiverem pensando que morri, eu estarei por aí, caminhando entre livros. O leitor eterno.

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Publicado por Gustavo

Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo