... «Atente-se agora à maneira natural, nunca exclamativa, como fala de Lisboa. Os seus epítetos jamais significam surpresa, mas sim afecto constante e cursivo. Contribui tal clima, de par com assinalados tópicos, para estabelecer que a capital foi o seu berço e as demais terras ocasionalmente a sua estalagem. Por exemplo:
Levantai, minhas Tágides, a frente
Deixando o Tejo às sombras nemurosas...
As Tágides podem significar as filhas da sua fantasia poética, «minhas» pois. O mais aceitável porém é que envolvam uma inferência de lugar. Na mesma ordem de ideias procurou tirar-se das adjectivações de tal e tal nome, como pátrio, pátrio Tejo, a mesma significação. Supomos que se procedeu abusivamente. Se pátrio em Camões tem a significação de natalício, comum à terra em que cada um nasce, também assume a sua mais lata significação aqui e além. Assim, se pátrio Tejo quer exprimir o rio que banha a terra que lhe foi berço, não restringe a sua propriedade só aos habitantes, seus ribeirinhos. A essa altura a palavra pátria tinha já o duplo poder de compreensão, a particular e a absoluta:
Esta é a ditosa pátria minha amada...
Igualmente pode reportar-se à la petite patrie, Lisboa, como se entrevê em cima quanto a Alenquer. Os dois versos seguintes:
Que veja e saiba o mundo que do Tejo
O licor de Aganipe corre e mana
dão-nos a chave do problema.
Aganipe é a fonte -- não se esqueceu de no-lo dizer Padre Manuel Correia, cura da Mouraria, nos doutos Comentários -- cuja linfa torna poetas quem a beba. A mesma virtude terá o mundo de reconhecer em Lisboa, de que Tejo na estrofe em questão é metonímia manifesta, pois ali está ele, Luís de Camões, a proclamá-lo, por nascença e criação, com sua inspirada lira.
Semelhantes versos são conclusivos quanto a determinar qual seja a terra que se deva considerar seu berço.» ...