Chegou o dia 1 de janeiro e o que mudou? Nada. Minto, mudou sim, geralmente a gente está mais gordo.
Maria Paula Curto *
Vocês vão dizer que eu sou muito chata e repetitiva, mas eu também detesto janeiro. Talvez para muitos ele seja um pouco melhor que dezembro, visto que o Natal já passou (desculpe, meu bom velhinho, Natal não é para mim), o problema é que janeiro também não é nada fácil. Primeiro, porque o verão continua. Não só continua, mas a tendência do calor é aumentar sensivelmente. E lá vamos nós ter aquela vida de comida congelada: saímos dos freezers que são as casas (de alguns, já que a energia está com valores nas alturas) e os escritórios (lembrando que eu comecei a trabalhar com Tecnologia da Informação e computadores de grande porte precisavam de ambientes glaciares para funcionarem corretamente. Pelo menos, era o que me alegavam quando do meu pobre nariz brotavam estalactites de gelo) e vamos para o micro-ondas, digo, ruas, para pegar o metrô, o ônibus ou mesmo ir a pé por míseros dois quarteirões que seja, e sentir a roupa grudar na pele – e eu não estou mais em idade de virar a garota da camiseta molhada. Não mesmo. Infelizmente, ou eu poderia até pensar em outras formas de ganhar a vida no verão… — e o seu corpo escorrer pelas pernas, formando poças de água e gordura pelo asfalto, carioca ou paulistano, tanto faz, pois quando o termômetro chega aos 40º, fronteiras são mera ilusão de ótica.

Depois, janeiro ainda tem a famosa síndrome do ano novo. E das mil e uma promessas que fizemos e que nunca, mas nunquinha que cumprimos. Não faremos exercícios físicos regularmente (no meu caso, nem irregularmente eu consigo!), aquela dieta da água, do carboidrato, do abacaxi, do jejum intermitente, não vai durar 3 dias, certeza. Não vamos conseguir ler nem um terço da pilha de livros novos que compramos na última feira da USP (e a gente continua fuçando site de livraria / editora buscando promoções e o pior, compramos mais de um livro para “aproveitar o frete”. Quem nunca??) Não vamos encontrar aquele amigo que mora distante e que a gente combina todos os anos, faz séculos, de fazer uma visitinha. Ok, dessa vez a gente pode culpar a pandemia. Eu sabia que ela serviria para alguma coisa, além de nos mostrar que gente precisa de gente e que saúde e abraço apertado são as melhores coisas do mundo!
Chegou o dia 1 de janeiro e o que mudou? Nada. Minto, mudou sim, geralmente a gente está mais gordo (olha o Natal causando de novo), de ressaca (era só mais um brinde para comemorar que chegamos vivos no próximo ano e isso, nos últimos tempos, já é muita coisa) e teremos que encarar um lindo engarrafamento, levando para casa aquele pensamento: por que mesmo eu insisto em vir passar a virada na praia? E prometendo que no próximo Réveillon será diferente, já sabendo que, passados os 364 dias, a gente esquece o perrengue da volta e repete os erros como se fosse a primeira vez. Ah, essa incrível capacidade humana de acreditar que será diferente…

No meu caso específico, janeiro tem uma dose extra de “horror”: meu aniversário! Novamente, vocês podem pensar: como assim, horror? É o seu aniversário! O mês que você veio ao mundo. Pois é, exatamente por isso. O mês que me faz lembrar que estou ficando mais velha, mais flácida, mais esquecida, mais cansada. Nesse 2022 farei 55. Como fã de matemática que sou, lembro que a distância da origem fica cada dia maior, ou seja, estou bem mais próxima do fim do que dos meus “tenros anos”. E isso me deixa tensa sim, não vou mentir. Trabalho na transparência. E como meu aniversário é justamente no último dia de janeiro, eu tenho o mês inteirinho para viver o tal “inferno astral”. Com o calor e os questionamentos que me consomem, nenhum nome seria mais apropriado… Uma vez me disseram que esse desgosto com o próprio aniversário é característico de quem nasce em mês de férias. Pela falta de amiguinhos para celebrar a data. Todo mundo viajando e a gente em crise, sozinho, envelhecendo, morrendo um bocadinho mais. Parece fazer sentido…
Mas assim como dezembro, janeiro também vai passar. E eu prometo não falar mal de fevereiro. Senão, vocês vão dizer que o problema não são os meses, mas esta chata que vos escreve. E eu terei que concordar. Feliz ano novo!

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.