Gustavo Nascimento
Créditos da imagem: Eduardo Sterzi, Paraty, 2007.
Em Opisanie Swiata, livro da escritora brasileira Veronica Stigger, é narrada de forma fragmentada a história de Opalka, um pai que está prestes a perder o filho e viaja de volta ao Brasil para encontrá-lo. A narrativa é formada por um conjunto de histórias que parecem funcionar independentemente e traz também fotografias e anúncios publicitários em meio ao texto. O livro de Stigger é produzido a partir de apropriações e aproveitamentos de fontes diversas que podem ser notadas na inspiração em personagens reais como Raul Bopp – escritor do modernismo brasileiro – e Roman Opalka – pintor polonês – até a incorporação de trechos inteiros de obras literárias e depoimentos sobre os artistas, além de conversas da própria Stigger com amigos. É possível ler também a amizade de Opalka e Bopp como uma metáfora sobre o encontro da cultura brasileira e estrangeira no modernismo.
O modernismo brasileiro é a principal fonte de apropriação da escritora. Ao abrir a lista de referências deixada ao final do livro intitulada “Deveres”, o leitor encontra alusões às mais diversificadas figuras tanto da literatura (como Mário de Andrade e Oswald de Andrade) como da cultura moderna (como Lévi-Strauss). Assim, a lista de “Deveres” não diz respeito apenas aos créditos oficiais de composição da obra, mas também indica uma dívida a ser saldada. A autora não deixa de referenciar o objeto apropriado e sua autoria, mas com a lista espicaça a curiosidade do leitor que é levado a mergulhar na lista de nomes ao final do livro e buscar uma relação com o que acaba de ler.
Em 2018, o Núcleo de Estudos Literários & Culturais (NELIC) publicou “A ópera” de Veronica Stigger. O texto é publicado como um capítulo extra do livro Opisanie Swiata e narra de forma bem cômica a ópera organizada pelo senhor e a senhora Andrade, que de forma improvisada programam as apresentações de outros artistas. A história de Stigger é uma clara referência à semana de arte moderna de 1922. A proximidade do senhor e senhora Andrade com os organizadores da semana de 22, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, podem ser percebidos em trechos como: “a senhora Andrade desenhou, um a um. os convites para o espetáculo e os distribuiu (..)”e “o texto era do senhor Andrade (…)”. A ironia aparece em “A ópera” de uma forma mais precisa, principalmente na descrição das personagens que parecem apenas frutos de uma burguesia consumidora de arte.
No resumo da publicação, a autora classifica o texto como um ensaio ficcional ou uma ficção crítica, o que se daria pelo fato de o texto não ser apenas uma ficção sobre a modernidade, mas também a exposição de um processo de análise da arte brasileira moderna. O diálogo que Stigger mantém com o professor e pesquisador Raul Antelo potencializa o hibridismo do experimento, hibridismo que também está presente nas diversas posições que Stigger ocupa no campo literário: escritora, pesquisadora e professora.
Ao final de “A ópera”, Antelo aparece como um personagem do conto de Stigger e “anotava mentalmente as quarenta belas páginas que escreveria sobre aquela ópera tão tosca”. O capítulo suplementar reforça a ideia de que Opisanie Swiata não é apenas uma mera imitação do procedimento e conteúdo modernos, mas uma expansão da discussão proposta por nossos modernistas, o que pode ser observado não só pela capacidade crítica do texto da Veronica Stigger ao próprio movimento como também pela reflexão que propõe sobre a literatura brasileira na contemporaneidade.