Gustavo Nascimento
Crédito da imagem: Cobra Makuxi, Jaider Esbell
Em meu atual projeto de pesquisa de iniciação científica investigo a relação da prática de apropriação com a escrita não criativa. Dentre as inquietações que surgem nessa etapa final está a relação da apropriação com outros procedimentos, como a paródia e a paráfrase. Em que medida a apropriação se aproxima e se distancia desses procedimentos, e se há ou não diferença entre eles, são perguntas que me interessam.
Em Paródia, paráfrase e cia, Afonso de Sant’Anna se debruça sobre os termos paródia, apropriação, paráfrase e estilização. Ao estabelecer um continnum entre os termos, Sant’Anna define as duas principais diferenças que se dariam por similitude entre a paródia e a apropriação e entre a paráfrase e a estilização. Sant’Anna define a apropriação como o exagero máximo da paródia. Para o crítico, a apropriação seria a exata cópia, apenas com a inversão ou expansão de sentido. Ou seja, enquanto a paródia é uma escrita que se concentra em um contra-sentido em relação ao texto original, a apropriação é sua cópia.
Será que podemos pensar que ambos os procedimentos estão presentes em Opsanie Swiata de Veronica Stigger? Poderíamos ver na Amazonia para a qual Opalka volta para reencontrar seu filho uma paródia da Amazonia modernista de Raul Bopp presente em Cobra Norato? A apropriação como cópia, nos termos de Sant’Anna, aparece como procedimento fundamental muito comentado pela recepção crítica da obra contemporânea, já que há trechos inteiros retirados de entrevistas e cartas, como acontece, por exemplo, com Cartas dos Emigrantes do Brasil. Mas, diferentemente do que afirma Sant’Anna, a “cópia” produz outros sentidos, é recontextualizada e reforça a temática do deslocamento, da viagem, centro das aventuras de Opalka e Bopp no livro de Stigger.
E talvez o valor atribuído à paródia por Sant’Anna não seja tão importante para Stigger e seu livro, já que não se trata mais de criar uma oposição, um “contracanto”, conforme o sentido etimológico de paródia, à estética modernista. Pelo contrário, a apropriação pode ser entendida como uma releitura da tradição moderna. O gesto de selecionar as fontes, recontextualizadas em novo enredo e, explicitamente, desvendar o procedimento de recorte e cole das referências que são costuradas à narrativa, e mencionadas como “deveres” ao final do livro, leva o leitor a pensar em um inventário crítico de nossa tradição literária.