Florinhas de Soror Nada | Luísa Costa Gomes
Em casa não havia palavras fora do sítio, cheiravam a bairro da lata. Luísa Costa Gomes domina as palavras com mestria e arte, e conhece-lhes o sítio certo. Só dessa forma alguém se atreve a escrever a história de uma menina que queria ser santa e, ao mesmo tempo, consegue arrastar o leitor preso à sua escrita.
Teresa nasceu numa família de classe média, observadora dos costumes e caridosa – o suficiente para saber que figo de rabisco é mais do que suficiente para os pobres. Uma educação privilegiada para quem o anjo da guarda é uma espécie de criada do céu que vigia.
Teresa deseja consagrar-se ao exemplo dos santos da sua devoção, ao seu martírio. Mergulha num excesso de veneração, ao ponto de esvaziar de sentido o objeto da sua devoção, ficando reduzida à contemplação de uma cruz muda. A relação com o corpo, que martiriza e procura desfear, afasta-a de uma verdadeira experiência espiritual, até que a fé se perde, restando apenas superstição e prece, num resquício de devota que vive com alma de mera espectadora.
Em criança, foge de casa à procura da Terra Santa e em adolescente, parte à busca do pai, uma peregrina perseguindo os seus sonhos num mundo que se desligou da realidade. O Deus da sua devoção é o mesmo que encontra nas coisas más, presente como forma de expiação. Cresceu para se descobrir abandonada pela família, pela fé e pela religião, suspirando pelo rosto perfeito dos mártires. Repetimo-nos na história dos nossos, dos que nos são próximos, mais do que na vida dos santos da nossa devoção.