Por Renata Deda

Era uma vez uma cidadezinha no interior de Teleópolis, onde só moravam crianças. Todos os dias eram de festa e a todo momento havia brincadeiras. Mas agora vocês, pequeninos, perguntam-me: e cadê os papais dessas crianças? Isso é uma longa história… . Mas eram pais que viviam trabalhando pelo mundo todo, e deixavam suas crianças em casa. Entretanto, em Teleópolis não havia perigo em deixar crianças sozinhas. Era uma cidade encantada. As ruas eram estreitas e ladrilhadas com pedrinhas quase prateadas. Havia árvores aos montes e de todos os tipos: baixas, altas, largas, fininhas, todas sempre bem verdes o ano todo, e cada uma dava uma fruta diferente, de forma que o verde das folhas estava sempre misturado com o colorido das frutas. As casas eram todas alinhadas, sempre com um jardim à frente – parecendo casa da vovó – e delas sempre saía um aroma de café fresco ou bolinho frito. As crianças adoravam. Tinha sempre um grupinho de meninos correndo de um lado, para jogar bola, e outro de meninas pulando corda.

No meio de toda essa animação havia um garotinho que sempre andava de cabeça baixa e não tinha amigos. Era normal que uma criança recém-chegada à cidade se sentisse assim. Algumas já se adaptavam logo, outras permaneciam por um bom tempo nessa melancolia aguda. Sua casa era a última e mais triste da rua, todos que passavam por ali pareciam sentir a solidão que emergia daquele pequeno mundo diferente do resto. Até que um dia…Sabem aquela brincadeira de tocar a campanhia da casa mal assombrada para testar a coragem do amigo? Pronto. Joselito, Mocinha, Jó e Alice resolveram brincar disso. E adivinhem qual era a casa “mal assombrada”. Acertaram em cheio! Joselito, que foi o último a tocar a campanhia, quis mostrar que era ainda mais corajoso que os outros, e ENTROU na casa. Isso mesmo, ele entrou. Joselito, apesar de ter sido o mais corajoso, era o mais novo do grupo, e esperava encontrar no mínimo um fantasma para correr atrás dele, mas ao invés disso, viu uma sala bem ampla onde quase não havia móveis, e uma luz fraquinha que saía do último quarto no final do corredor. Morrendo de medo e com passos lentos, mas confiantes, Lito, como era chamado, foi chegando mais perto e encontrou uma criança, talvez mais nova que ele. Era um menino magrinho e com feições tristes que chorava silenciosamente em sua cama de madeira, balançando os pequenos pezinhos, pois não alcançava o chão. Lito aproximou-se e perguntou seu nome, mas ele não respondeu. Tentou puxar conversa diversas vezes, mas nada adiantava. Até que lembrou-se de uma pessoa e deu um sorriso bem grande. Na mesma hora Lito saiu correndo e passou por seus amigos que já estavam temendo o pior escondidos atrás de um arbusto pouco adiante da tal casa. Depois de certo tempo, Lito parou em frente a uma casinha com aspecto de biscoito com cobertura de chocolate e confete. Apesar da semelhança com a casa da bruxa da história de João e Maria, o morador dessa casa nada tinha a ver com tal criatura. Não. Em Teleópolis não tinha espaço para maldade.

Joselito entrou na casa e explicou tudo ao único morador com mais de 10 anos que morava na cidade. Ele aparentava ter mais ou menos 70 anos e, desde sempre, todos se lembravam dessa figura exemplar. Era para ele que todas as crianças recorriam quando tinham algum problema. E elas se davam muito bem com o “vovô”. No entanto, os pequenos moradores de Teleópolis nunca atentaram para um fato bastante curioso. “Vovô” sempre resolvia os problemas delas sem precisar dizer uma só palavra, e todos conseguiam se sentir muito à vontade ao falar com ele.

Chegando à casa triste do final da rua, Joselito deixou o “vovô” e saiu. Lá dentro, o garotinho ainda estava cabisbaixo. Lentamente, levantou o olhar, encontrando os olhos azuis e misteriosamente calmos do velho. Sentiu-se momentaneamente hipnotizado. Minutos depois, como se tivesse acabado de acordar de um sono a profundo, começou a falar e explicar tudo que havia acontecido. Que seus pais saíram para trabalhar e deixaram-no sozinho. Era quase um monólogo que estava acontecendo. O menino falava e o velho ouvia sabiamente. Até que, sozinho, começou a achar as respostas para sua solidão. Ele mesmo provocara aquilo. Ele não confiou que os pais voltariam e enclausurou-se daquela forma. E isso estava errado. Ele tinha que confiar em seus pais. Enquanto falava expunha todos esses pensamentos em voz alta, andava de um lado para o outro, e ao final parou e olhou para o “vovô”, que estava com aquele leve e discreto sorriso no canto da boca, e ele, com uma alegria nada discreta, deu um abraço muito forte no seu mais novo amigo, apresentou-se como Carlinhos e saiu correndo o com o máximo de euforia que uma pessoa poderia ficar.

Do lado de fora, Lito explicava tudo aos seus colegas, e agora aguardavam ansiosamente pelo desfecho daquela visita. Um tempo depois, “vovô” saiu da casa com o garotinho, agora rindo à toa. E facilmente ele se enturmou, enquanto o “vovô” descia a rua sorrateiramente, com aquele famoso sorriso de canto. Mais uma vez sem dizer nada.

O silêncio em determinadas horas, crianças, é o melhor remédio que existe, e esse era o maior ensinamento desse velho sábio que protegia os pequeninos de Teleópolis há muuuuuito tempo.