03
Fev22
Maria do Rosário Pedreira
Há uns dias, o Facebook enchia-se de partilhas de um vídeo com a canção de Chico Buarque Com Açúcar, com Afecto, cantada por Nara Leão, Maria Bethânia e tantas outras grandes vozes do Brasil, quando não pelo próprio Chico, claro, a solo ou em dueto. Foi, aliás, esta enorme figura a responsável pela partilha em massa da canção ao declarar que não voltaria a cantá-la (e provocando o efeito contrário). E porquê? Porque os grupos radicais feministas, sobretudo um deles, chamado WOKE, acham que se trata de uma canção que apela ao machismo e à submissão das mulheres e não pára de se manifestar publicamente contra o cantor, que certamente perdeu a paciência e prefere poupar-se a isso. Não sabem, porém, esses grupos que foi a própria Nara Leão quem pediu a Chico aquela canção do doce predilecto que aguarda o marido infiel em casa, e não sabem também que escamotear é a melhor maneira de fazer com que o erro perdure. Paradoxalmente, querem liberdade e esquecem-se da liberdade de expressão... Sobre este assunto, aliás, saiu um muitíssimo interessante pequeno ensaio, Todos os Lugares São de Fala, de Paulo Nogueira, que é um manifesto pela liberdade de expressão num tempo em que as redes sociais estão cheias de polícias, em que começámos a censurar os nossos textos quase sem dar por isso, em que umas luminárias quaisquer decidiram que um escritor heterossexual não pode escrever um romance com um protagonista gay e uma poestisa branca não pode traduzir os textos de uma negra. Leiam-no e dêem-no a ler. E ponham a tocar a canção de Chico Buarque, não podemos deixar que nos calem, ainda por cima, sem açúcar e sem afecto.