08
Jul10
Maria do Rosário Pedreira
Quando aqui fiz um post sobre dicionários e como eles me apaixonam, tive um número de comentários inesperadamente grande. Dando conta da minha paixão pelas palavras, encontrei muitos que, desse lado, queriam confessar-se afins e trazer o seu contributo. Quiçá para os compensar dessa generosidade, contarei hoje uma história cómica que tem que ver também com dicionários. Sou a mais nova de quatro irmãos e sempre me dei melhor com os meus irmãos do que com a minha irmã. Esta, mais velha quase cinco anos do que eu, dava-me beliscões, empurrões e outras carícias do tipo quando não estava ninguém a ver – mazelas das quais eu não me queixava imediatamente, mas apenas quando a minha mãe aparecia (e podia ser horas depois). Então, a minha irmã chamava-me normalmente queixinhas, mas um dia, sei lá porquê, chamou-me «bufa». E, embora isto se passasse no tempo dos bufos da PIDE, eu nunca ouvira a palavra e fui ao dicionário ver o que queria dizer. Deveria ter procurado, bem sei, o masculino «bufo», mas a verdade é que na altura ainda era uma amadora nestas coisas da língua. A definição que encontrei (acho que no Dicionário de Cândido de Figueiredo) ainda hoje nos faz rir a todos lá em casa quando nos lembramos dessa cena (pois tive de consultar os mais velhos para a perceber na sua plenitude): «Ventosidade que se escapa do ânus sem estrépito.» E ainda há gente que ache os dicionários um tédio…