A temática parece vir na contramão das preocupações desse momento. E mais: parece ingênuo, se não irrisório, pensar em beleza — sobretudo em tempos de força bruta, de miséria e de insignificância. E, claro, a beleza vem só depois de ser instituído integralmente o homem real; porque sem pão, sem liberdade, não se tem ainda o homem em sua inteireza; a sub-condição produz um sub-homem.

Montaigne, desde o século XVI, reivindicava, de modo surpreendente: a beleza é um produto de primeira necessidade. Fazia eco a uma noção comum no mundo antigo; e esse mundo antigo transbordava também de horrores, de feiuras de toda ordem. No entanto havia um movimento inverso, de contraponto na busca de alguma beleza que desse sentido à barbaridade; é como o imaginário amarra o caos em algum cosmo: daqui as lendas, os contos iniciáticos desde a tradição oral, até a fascinante narrativa dos astrofísicos, da quântica, com a ciência reencantando o mundo; a beleza ante o infinitamente pequeno, tanto quanto ao infinitamente grande: isso, que fazia o terror de Pascal, faz o fascínio da ciência contemporânea. Nossa relação com a complexidade do real pede resposta à altura: criativa, inventiva — com beleza. A singularidade emergindo da turbulência.   

É possível que a primeira atitude do humano, o espanto, (de onde vai nascer a filosofia) tenha sido um render-se ante a beleza, ficar subjugado pela beleza — assim, o desejo de entender, de racionalizar, vem depois, como uma lucidez que organiza. Isso é o que faz o cientista, tanto quanto o poeta — com instrumentos e meios diferentes.

Mas a necessidade de beleza está já aí; a aventura de saber é igualmente um perigo: quem sabe tende a repetir; já sabe. Entendeu isso muito bem um criador como João Cabral: Miró sabia a mão direita/ demasiado sábia/ e que de tanto saber/ já não podia inventar nada. Na Academia há o risco da superstição do método: há que seguir o método — mas, em são juízo, quem só segue o caminho aberto já, já não cria, repete; o método leva (ou apenas confirma) o consabido. Método é coisa de escola; a invenção é a única coisa que conta. Por isso a beleza vem do risco. A narrativa de Kafka, desconcertante, traz o impacto próprio da coisa nova; o texto, irritantemente arrebatador, de Guimarães Rosa em Tutameia ou Grande Sertão: veredas.

A beleza na ciência também nasce de uma conjuntura audaciosa; portanto beleza e risco. Mas, e se nas redes sociais estivermos mais para seguidores — posição confortável, posição de conformação ao que diz o grande número? E se, (ainda é mera suposição), se estivermos cada dia mais, nos embrenhando nos riscos dos automatismos mentais? A formatação comum é uma conformação. A beleza tem um custo; é preciso parar, escutar de novo o verso da Calcanhotto: eu não moro mais em mim; quando alguém em dado momento fica assim sem chão, porque o outro se foi. Geralmente a música que corre nas ondas, nas redes, nas tantas plataformas, elas dispensam a beleza: basta que comuniquem, que transmitam algo elétrico, a dose diária de dopamina; e se dispensa o mais. 

No entanto, num momento ou outro, de modo imprevisto, a gente topa com a beleza — e suspende o fôlego. A beleza exige; quando a satisfação pede apenas consenso. Talvez por isso, as redes cumpram bem seu papel; mas, nós, nós precisamos querer mais, precisamos não abdicar da beleza.

Hoje a analogia entre literatura incorporada à vida e a física fica mais patente: a física era a ciência dos estados ordenados, pressupostos como ordinários; no limite do previsível; hoje a astrofísica, a quântica, constroem uma narrativa de grande beleza. Já a gente entende melhor a aposta no modo singular da narração em Montaigne, em Guimarães Rosa, em Milton Hatoum.

Há uma solidão do gosto que nem sempre é fácil de carregar; gostamos de um autor, que os outros creem mediano; uma determinada música nos toca, que outros julgam apenas ridícula. Porque, socialmente somos condicionados à repetição, ao consensual, não à criação. E a beleza tonifica; assim como um bom nadador respira diferente. Nem é nenhuma epifania: é o ritmo do respirar fundo de cada qual no momento do gozo.

Surpreende falar de beleza no dia a dia, sem pretensão conceitual. Dela se falava sempre com ênfase erudita, conceito com salto alto; mas a beleza bebe-se aos poucos, em pequenas percepções que aguçam o gosto da vida; a sintaxe social organiza nossa percepção em imagens-padrão, como coisas lineares — e empobrecem a beleza; é a estética da Barbie, é indiferença à diferença marcante; a desistência preguiçosa de qualquer exigência de esforço; pior: acobertado pelo gosto comum (o que seria o gosto comum?); depois, as pessoas passam a nem ver seu sentido; é quando as coisas se agravam: nem se exige mais sequer que as coisas tenham um sentido, que se expressem em alguma beleza: é a pobre redução ao cinza. No entanto, sempre houve uma fome de beleza; desde os primórdios; um artefato multimilenar numa recente descoberta arqueológica mostrava essa persistência da beleza, como uma espécie de plenitude existencial. Os ribeirinhos do Amazonas talham ainda seus remos com requinte de detalhes admiráveis; a tapioqueira na Sé que se empenha em dar um formado bonito ao produto – no trabalho há um orgulho em que ela põe muito de si; apressado ou faminto o freguês come com gosto ... uma tapioca feita a gosto. Nem vale se valer aqui da mais-valia, como diz o economista: o que se avalia aqui não tem preço; nada paga esse gosto e orgulho do trabalho bonito; a beleza numa ordem de valores que ali fica situado além, entre o pragmático e o metafísico. Mas, quando as coisas ficam padronizadas, levando essa relação possível à beira da indiferença, então é que a beleza, coitada, cabisbaixa, cala.

Vamos poder ainda acreditar ser possível educar o olhar, os sentidos, no sentido de uma vida, ou de um dia adia mais pleno? Afinal, para que a beleza “salve o mundo”, como desejou um dia Dostoievski, vai ser preciso que, primeiro, a gente salve essa noção — meio ingênua, meio simplória – de beleza. Como uma estrela no fundo de um poço.