Ciro Alvarenga Fosse um dia considerado “útil” de semana qualquer, eu teria despertado ao primeiro toque do alarme, assim como de costume. O possível fim de um ciclo – mais especificamente do nosso – fazia com que percebêssemos o tempo – o nosso tempo – correr lentamente ao longo daquele dia. * Mantive-me na prisão das minhas – talvez das nossas – angústias. Enquanto eu ainda suspirava na cama pela manhã, imagino que você já estivesse perambulando pelo bairro, carregando o orgulho empacotado nas costas antes de levá-lo ao escritório logo pela manhã: dentro de uma escala com pontas opostas de permissão e proibição, nossos sofrimentos estariam situados de forma diametralmente oposta. Não diria que se tratava de obviedade a todos que nos vissem, mas ao menos aos poucos coadjuvantes que de perto acompanhavam nossas vidas. * Enquanto me permiti não comparecer ao trabalho, imagino que você tenha chegado mais cedo do que de costume, sob o falso pretexto – caso indagado por algum de seus colegas – de adiantar demandas inexistentes. Teu orgulho será abruptamente desempacotado e esfacelado no chão de uma calçada irregular qualquer a caminho de casa. Você sairá no meio da tarde sem a prestação de quaisquer explicações a seus colegas, à espera de um possível reencontro entre nós nesse mesmo dia. Você, no entanto, dirá que sua vinda temprana à casa se dá em razão de uma falsa dor de cabeça: é tua forma singela de dizer como se sente. * Caso me visse, você se acanharia em algum canto do ainda nosso apartamento e pensaria em estratégias sutis de como reatar para que juntos permanecêssemos ao menos até o final da semana. A mera ideia de se permitir sofrer intensamente em uma quarta-feira, te arrepia. Não haveria válvula de escape naquela noite para nenhum de nós dois. Quando você chegar, já terei saído há algum tempo de casa. Você cairá aos prantos e enquanto eu faço uma sessão extra de análise, você retornará aos aplicativos e tentará alguma qualquer coisa ou qualquer alguém para mitigar o sofrimento desta noite. * Enquanto eu escrevo essa carta, você estará na companhia de alguém qualquer, impaciente e assinando para si mesmo a necessidade de um rápido abraço qualquer antes de dormir.