Subo a escada rolante e não dou atenção para o mosaico do chão, para a abóbada fugida de algum templo bizantino, para os lustres balouçantes. Os passos ecoam no meio do som de vozes misturadas, nas quais ocasionalmente se destacam o brilho de algum grito ou a escuridão de alguma risada perdida. As luzes das lojas confundem a visão com sonhos de consumo, tentando me desviar do destino; outras tocam músicas com desespero, fazendo promessas como as sereias turvaram os marinheiros de Ulisses. Resisto ao monstro luminoso que insiste em me reter no estômago e continuo caminhando, os olhos fixos na porta da Galeria. Lembro que Cortázar disse que todas as galerias são a mesma, que as regras do espaço e do tempo não valem no seu interior, que um homem pode entrar na França e sair na Argentina, que um homem pode entrar em Porto Alegre e sair onde quiser. A porta me separa da rua mundana, e o arco que a distingue em meio à sólida parede é um último lembrete, deixai a esperança, vós que entrais. Cada passo me aproxima mais da saída, o barulho das pessoas corre pelo corredor em um cicio quase hipnótico, fecho os olhos e piso para fora, nem sempre o homem que sai é o mesmo que entrou. Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo