05
Jul21
Maria do Rosário Pedreira
Quando conheci pessoalmente o senhor Pires (leia-se: José Cardoso Pires), ele já tinha infelizmente sofrido um AVC e, portanto, já não teria a energia de que todos os que lhe foram próximos fazem alarde (escreveu, de resto, um livro intitulado De Profundis sobre o buraco negro que viveu na sequência do derrame e que li oportunamente). Na Feira de Frankfurt de 1997, quando Portugal era país convidado, tentou subir na escada rolante que era de descer e deu cabo de um pé, mas já ninguém se lembra se tinha bebido um whisky a mais ou estava apenas distraído. Em novo, era dado ao soco e não se coibia de pregar uns murros num crítico que desdenhasse dos seus romances. Escreveu uma obra-prima chamada O Delfim, que recebi de presente de anos quando atingi a maioridade e foi adaptada ao cinema por Fernando Lopes, bem como muitos outros livros importantes (eu comecei por Dinossauro Excelentíssimo). Diz quem privou com ele que era uma personagem fascinante, e quem queira saber porquê tem agora ao dispor uma biografia exaustiva pela pena de um dos mais elogiados escritores contemporâneos, Bruno Vieira Amaral (Prémio Literário José Saramago com o romance As Pequenas Coisas). Chama-se Integrado Marginal (um grande título) e está a fazer furor. O senhor Pires devia gostar de a ler.