03
Jan23
Maria do Rosário Pedreira
Espero que estejam retemperados das festas e desde já vos desejo um excelente 2023, cheio de boas leituras. Hoje falo-vos de Um Cão no meio do Caminho, que é o terceiro livro que leio da escritora e jornalista Isabela Figueiredo, autora dos já muito afamados Caderno de Memórias Coloniais e A Gorda, este último igualmente um romance e já traduzido em várias línguas. No livro que ando a ler, o narrador é um homem peculiar que vive de noite e gosta de cães; teve, de resto, um cão muito especial chamado Cristo, que o acompanhou no final da infância, infância essa que terminou abruptamente com o divórcio dos pais e o trauma que daí adviria e o levaria a viver em casa de uma avó. Esta e outras histórias deste homem que apanha coisas do lixo (trabalhar nunca foi para ele) são-nos contadas como se fôssemos a vizinha do lado, porque, na verdade, é a essa vizinha adoentada que José Viriato narra uma certa parte da sua vida para justificar porque é hoje a pessoa que é (ela também retribui com alguns episódios da sua existência, um deles a abrir o romance) e, claro, porque continua a amar os cães mais do que as pessoas, e a solidão mais do que a companhia. Isabela Figueiredo disse numa entrevista que foi com este livro que finalmente acreditou em si como ficcionista. Eu já tinha acreditado nisso com A Gorda, mas não custa nada insistir.