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Dez23

I - Jardim das Tormentas. 1913.

Manuel Pinto

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(...) «Com os grandes calores de Junho, acolheu-se D. Mafalda com a tia à Quinta de Piedras Rojas, nos arredores de Madrid, onde, lés a lés do pomar, passava um corgozinho de água pura, que descia dos cerros. E porque assim era, vinha cantante e aos tortolões, deixando pelo pedregulhal, até se ensopar no alqueive, uma toada saudosa que era como o latejar de artéria do próprio ermo. Nunca, também, ali cessavam os gorjeios dos pássaros, e duas vacas turinas, de tetos repletos, retoiçando, mosqueavam o verde tapete das relvas de sua mancha mazorreira branco e sépia.

A meio duma bacia de água, um Sátiro e uma Ninfa representavam o fugitivo lance que vai, em amor, da rendição à posse. Ele forte, membrudo, tronco e feições humanas, pés em forquilha, galhos incipientes por detrás das orelhas carnudas, no queixo uma barbicha rala -- que lhe dava ares estranhamente sensuais e de pincha-no-crivo; ela especiosa e cheia de graça, cabelos revoltos para os ombros, em tudo nossa mãe Eva no momento crítico de perverter Adão. Segurava-a o Sátiro pela cinta, contra si, num empalme de força e ricto largo de concupiscência; buscava ela ainda esquivar-se, mas tal esquivança, bem se lhe via no sorriso dengue e malicioso, era mais desafio que recusa. Era sua, e o orgulho do Sátiro, de arrogante, profanava o azul do céu e a castidade das águas. E tão enleado era o seu gesto, de tanta luxúria e satisfação sobre si, de tão subtil zomba para a frágil graça que preara e para o mundo em volta, que, se o fizessem em pó, no lugar dele, ficaria para sempre de sempre a sua voluptuosidade. Roseiras do Japão debruçavam para ele os ramos floridos; as ôndulas, que a água semeava as despenhar-se da cale, corriam e brincavam na balsa como cabrinhas brancas, e olhos que olhassem mais não viam que o carão sensual gozando a presa. E o jogo lúbrico do Sátiro e da Ninfa figurava ali, a céu aberto, um dos instantes capitosos da eternidade.»

   (continua)

publicado às 19:02