LAGARTOS

Eu: assim começa o poema

Eu vi ontem, sem ir muito longe, um lagarto feliz.

Claro, afirmar que vi um lagarto

e que esse lagarto é feliz são afirmações que,

apesar da sua coerência, parecem

impróprias de mim.

Tudo pode explicar-se razoavelmente

se tomarmos por indubitável a primeira

afirmação, a primeira certeza:

certamente, ontem vi um lagarto.

Com alguma indulgência, ante mim,

ante o lagarto,

alguém podia crer sem qualquer ciência

na existência de lagartos felizes,

e quanto a isso, não custa nada convencer-se

de que um de nós é o lagarto feliz que vi ontem

dentro da relva,

desde a margem,

sobre o telhado.

Pena que ontem não tive tempo

de sair desta casa sem janelas.

Rosario Pérez Cabaña,

in Mientras Tú Cantas

(tradução de Tiago Nené)

 

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