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«(...) é mais estação de alma do que de natureza»
O outono é poesia. É o estado mais puro do processo de renovação - interna e externa -, porque abre os seus braços para acolher a mudança. Além disso, há algo de deslumbrante no seu traço melancólico, que nos incentiva a procurar aconchego em tudo aquilo que nos acrescenta. Atendendo a que, a par da Primavera, é a minha estação predileta, no ano transato, partilhei aqueles que considero serem os seus encantos. Para 2021, optei por combinar sugestões culturais que nos permitem abraçar o outono com todo o rigor e propriedade.
A lista seguinte pode não estar, diretamente, sintonizada com a época em si. No entanto, representa livros, filmes e séries que, para mim, têm muito daquilo que é a sua essência: o conforto e o facto de combinarem, na perfeição, com um programa descomplicado no sofá, com uma manta e uma bebida quente por perto.
LIVROS PARA ABRAÇAR O OUTONO
O Sol e as Suas Flores, Rupi Kaur
Estabelece uma ligação atenciosa entre palavras, mensagem e ilustrações, enquanto marca uma epifania, uma rutura e, posteriormente, uma mudança. Por consequência, parecem existir diversas vozes, de todas as componentes que habitam em nós. E há um grito: de revolta, de resistência, de resiliência. Esta obra lê-nos a alma, ensina-nos a perdoar e a valorizar a empatia. Através de poemas plurais e, acredito, intemporais, compreendemos que há sempre luz, colo e um porto de abrigo. Há amor. E uma caminhada vulnerável.
Capitães da Areia, Jorge Amado
É delicioso reler os detalhes que nos relembram que estamos perante crianças: por causa dos seus sonhos, dos seus medos e, inclusive, de alguma ingenuidade. E isso provoca no leitor uma vontade imensa de as proteger no seu abraço. Este livro não se poupa em aprendizagens. Algumas evidentes. Outras mais subtis. Porém, há uma que, a meu ver, se destaca: podemos nascer condicionados pelo meio, mas não ficamos predestinados à miséria. Podemos, sim, ser influenciados, mas nunca presos.
A Máquina de Fazer Espanhóis, Valter Hugo Mãe
É mais do que um livro sobre solidão, fraquezas - físicas e da alma - e ficar velho. É, acima de qualquer outro tema, sobre o profundo amor que habita no lado esquerdo do peito e que, apesar de já não ser correspondido, continua a despertar o melhor que há em nós. Questionando a morte, o regime Salazarista e a sabedoria adquirida, repensamos a forma como nos posicionamos no mundo. E percebemos que, embora a terceira idade pareça ser o fim da linha, temos sempre a oportunidade de inventar um espaço seguro.
A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón
Este romance termina da mesma forma que se inicia, demonstrando o quanto a nossa evolução é cíclica. Através do seu final com notas de esperança, e atendendo a que aborda um pouco de tudo - mistério, morte, política, sexo, amizade -, compreendemos que há obras nas quais tropeçamos e que nunca mais nos abandonam. Porque, neste elo tão umbilical, fazem morada no nosso peito, marcando-nos eternamente.
As Falsas Memórias de Manoel Luz, Marlene Ferraz
A história é feita de inúmeros traços marcantes. E faz-nos deambular pelos vários tipos de amor, no mesmo compasso em que nos ensina a necessidade de convivermos com quem nos amplie. Porque ser alto é ser lúcido e humilde. Apesar de nos tendermos a esquecer, a altura vem de dentro.

FILMES PARA ABRAÇAR O OUTONO
A Todos os Rapazes que Amei
A energia deste argumento é contagiante e cómica, mas não é por isso que não aborda temas de máxima importância. A começar pela necessidade de sermos honestos com os outros sobre os nossos sentimentos. Com um conceito original, a vida da protagonista vira-se do avesso e é fantástico acompanhar o seu crescimento. Há sempre muitas sensações para gerir, mas a inaptidão social cede espaço. E Lara Jean é a voz que muitas gostaríamos de ter tido - mesmo que ela nem sempre compreenda o seu impacto nos outros.
Orgulho e Preconceito
Tem uma crítica social clara. Através da ironia e da sátira, expõem-se a ganância, a ociosidade, a conveniência, o jogo de interesses, a hipocrisia. Num plano oposto, partilha também o peso dos sentimentos, a fragilidade humana e o papel da mulher - e os parâmetros a que tem que corresponder. Nesta dicotomia de status, é incrível como tendemos a ser arrogantes com o que nos deixa desconfortáveis social e sentimentalmente. Sinto que amadurecemos com as personagens. E que os nossos horizontes se expandem.
A Proposta
Já perdi a conta da quantidade de vezes que vi e revi este filme, mas a verdade é que nunca me canso. Pelo argumento e pelo elenco. O seu tom cómico proporciona-nos cenas memoráveis, mas que também nos alertam para questões pertinentes. E, depois, nunca resisto a uma história de amor peculiar.
Coco
Imaginam viver num ambiente em que a música é vista como uma maldição? Eu não. Portanto, senti a dor do pequeno Miguel. Mas se há algo que o nosso protagonista nos ensina é a lutar pelas nossas paixões. Nem que isso nos leve para um mundo muito particular. Inspirado no tradicional Festival do Dia dos Mortos, vamos celebrar aqueles que já partiram e desvendar um mistério familiar.
Chama-me Pelo Teu Nome
Um filme sobre a vida, o amor e a descoberta da sexualidade. Com uma carga emocional palpável, oscilamos pelo desejo, pela inocência e pelas inseguranças de um jovem de 17 anos, que começa a compreender a sua identidade. Apesar de ter gostado da picardia constante entre Elio e Oliver, foi a conversa que o pai de Elio teve com ele que mais me tocou, porque espelha aceitação e tudo aquilo que guardamos dos nossos.

SÉRIES PARA ABRAÇAR O OUTONO
Friends
Passei horas a ver crescer esta amizade. Ri, chorei, senti-me nostálgica e aprendi lições que guardo com todo o carinho. O seu lado proximal, que nos fez acompanhar todos os acontecimentos do quotidiano dos seis protagonistas, levou-nos a criar uma identificação especial, dando-nos a impressão de que poderíamos ser nós a viver cada uma daquelas situações - e, na realidade, não é uma sensação descabida. Rachel, Monica, Phoebe, Joey, Chandler e Ross marcaram gerações, tornando-se numa verdadeira família - entre eles e para quem viu a série. Com um cunho, aparentemente, leviano, pela forma como encaravam o rumo das suas vidas, rapidamente se percebe que o argumento tem consistência, reinventando o género cómico e apresentando um produto digno, original e memorável, que flui com naturalidade. E que tem pormenores inesquecíveis.
How I Met Your Mother
Quem não deseja encontrar o amor da sua vida, exercer o emprego que mais ambiciona ou viver uma aventura «legen... wait for it... dary. Legendary»? E se for entre amigos é ainda melhor! Através de flashbacks, introduzidos pelo famoso Ted Mosby, vamos ficar a conhecer todas as peripécias hilariantes pelas quais passou para encontrar a mulher dos seus sonhos. No entanto, o equilíbrio entre as personagens é o que sustenta todo o enredo, pois a história está longe de se centrar apenas no arquiteto. Com uma elevada dose de humor, não houve um único episódio que não me prendesse ao ecrã. E é a imprevisibilidade e as constantes reviravoltas que os tornam tão fascinantes. Para além disso, tal como acontece em F.R.I.E.N.D.S, vemos o elenco a amadurecer, a tornar-se mais coeso e a reforçar a amizade que partilham.
Castle
Um escritor de best-sellers e uma detetive de homicídios cruzam-se de uma forma particular e pouco amistosa, o que proporcionará momentos hilariantes. Sou apreciadora assumida de policiais puros, mas também não resisto àqueles que adicionam drama e comédia - com qualidade, claro. E sinto que Castle e Beckett, para além de se complementarem, equilibram bem os traços que os distinguem. Nunca faltam peripécias e situações de enorme tensão. E a colaboração entre o escritor e a Polícia de Nova Iorque vai muito para além do trabalho realizado na esquadra. É muito fácil relacionarmo-nos com o elenco e com os casos de cada episódio. Porque tudo é muito bem fundamentado. E agrada-me que as personalidades das personagens principais tenham tanto de cómico como de irónico, tanto de frágil como de força. E o lado sentimental cativa.
Sara
A obra é intensa, é crua, é vulnerável na dose certa. Manifesta a inabilidade, o vazio, a tentativa de perfeição e a constatação de que somos falíveis. Em simultâneo, sentimos a maldade, a mesquinhez, a crítica gratuita e infundada. E, de repente, tudo se resume a uma única condição: chorar. Como se tudo o resto não tivesse valor, como se o talento se desmoronasse sem esse fragmento. A caricatura é magnífica, bem como a ligação antagónica entre algumas personagens. A interpretação mordaz e ácida, de alguém sem papas na língua, abrilhanta a ação e torna-a muito mais poderosa. E é curioso como as situações - e as sensações - são levadas ao extremo, ao limite, mas sem perderem a graça e a leveza. Esse contraste atinge a genialidade.
Até Que a Vida nos Separe
As famílias unem-se na alegria, na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte se intrometa no caminho. Mas e quando é a vida a fazê-lo? Com várias histórias que se cruzam, acabamos a refletir sobre as inúmeras visões do amor. Privilegiando uma aura nostálgica e cómica, num equilíbrio perfeito, traduz humanidade.

Quais são as vossas sugestões culturais para abraçar o outono?
