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Jul25

Maria do Rosário Pedreira

Num estudo realizado no Reino Unido por uma ONG chamada Women's Prize Trust (WPT) envolvendo 54.000 livros, concluiu-se que os homens compram sobretudo livros escritos por homens (mais de 80%), parecendo desconfiar de que os livros escritos por mulheres são xaroposos e ocos. Num post de um clube de livro que pelos vistos a rainha Camilla tem, o comentário do argumentista de cinema Richard Curtis (Notting Hill, O Diário de Bridget Jones...) em relação ao livro proposto de uma escritora foi excessivo (qualquer coisa como «Que nojo!»). Felizmente, a própria filha do argumentista parece ter-lhe dado uma lição e sugerido bastantes autoras muito boas; e a atrás referida ONG lançou uma campanha chamada «Homens Que Lêem Mulheres», pedindo a escritores consagrados (Salman Rushdie, Ian McEwan e outros) que falassem das suas escritoras preferidas, levando então o senhor Curtis a mudar de ideias e maravilhar-se com Elizabeth Strout, Chimamanda, Arundhati Roy e mais uma dezena de mulheres escritoras, confessando ter descoberto nelas uma humanidade que até era mais ao seu gosto do que a encontrava nos livros escritos por alguns dos seus autores preferidos. Em Portugal, ao que parece, segundo uma tese defendida na Universidade Nova de Lisboa por Clara Nunes da Silva que teve por amostra 400 leitores (200 homens e 200 mulheres), 81% dos homens inquiridos escolheram livros escritos por homens, o que significa que o padrão se repete provavelmente em todos os países. Faz-nos falta uma ONG como a WPT a ver se as coisas mudam por cá, até porque as mulheres não são esquisitas (lêem livros de homens e mulheres indiferentemente) e, como até lêem mais livros do que os homens, mereciam ser mais lidas por eles.