Ninguém me avisou sobre os olhos. Deveriam ter alertado: é o primeiro elemento em que o foco da visão se prende, justamente aquele que nunca mais será esquecido. Depois, em toda escultura ou estátua que ainda será vista, os olhos serão procurados, e cada par será diferente do anterior. Eles expressam dor, surpresa, raiva, desespero. São olhos humanos presos dentro de uma inumanidade. Sentimentos conflitantes preenchem o seu espírito: pouco importam as deficiências do autor da estátua, os seus aleijões, as suas limitações. Tudo o que você quer saber é como ele conseguiu transformar matéria morta em vida, como ele conseguiu captar a divindade. Nenhuma foto é capaz de apreender toda a força daquele olhar, e a tristeza é grande ao saber que somente a memória conseguirá carregar, a partir de agora, a recordação daquilo que foi sentido. Os olhos ficarão no fundo da memória, mas você reza para que, no último segundo da sua vida, no último ar que invadir o seu pulmão, eles reapareçam, e a sua doce humanidade traga consigo o perdão, a absolvição e, se for possível, o silêncio. ele Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo