Por José Reinaldo do Nascimento Filho
Terminei.
Com muita felicidade – ao mesmo tempo que num triste pesar- venho aqui comunicar mais um “fim” de uma leitura feito por este que vos escreve: terminei O Idiota.
Deixando de lado a genialidade literária do autor, venho aqui registrar o que, para mim, é uma de suas características mais peculiares dos seus livros (aqui posso falar com muito orgulho que, das suas maiores obras, falto apenas OS Possessos – obra que já está na minha futura lista dos 10 próximos livros a serem lidos e relidos): imprevisibilidade.
Gostei ainda mais do livro porque ele oferece várias possibilidades para entendermos o contexto histórico, interpretações do autor/personagem sobre a religião Cristã e discussões psicológicas (ooohhhh!!!); além, é claro, do niilismo – palavra repetida várias vezes e direcionada à alguns personagens (O niilismo é um conceito filosófico que coloca todo tipo de valor e “sentido” em discussão. Acredito que não exista uma melhor palavra para definir Dostoievski: vejam por exemplo como ele discute o tema do parricídio ( Os irmãos Karamazov) e da justificativa para o assassinato dos “inúteis” (a velha senhora de Crime e Castigo). E sobre o “fim” dos inúteis… raios provenientes do céu (Piada interna. Essa eu não pude resistir).
Leiam. Estudem. Leiam mais. Leiam Dostoievski.
28/05/2010
Por José Reinaldo do Nascimento Filho
Imaginem a junção dos personagens Dr.House, Dr. Wilson (melhor, e único amigo de House), Jesus de Nazaré e Dom Quixote. E então, o que temos? O Príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin, da obra “O Idiota”, de Dostoievski (sim, o gênio está de volta ao blog).
Lidos, aproximadamente, 25% do livro, e com uma narrativa em terceira pessoa, Dostoievski nos conta uma estória de um personagem que consegue condensar bondade, honestidade e sabedoria – sem, no entanto, magoar uma só alma viva (acaba aqui a semelhança com Dr. House).
Passados 4 anos vivendo na Suíça, Míchkin volta à Rússia apenas com a roupa do couro e um pequeno pacote com mantimentos. Resolve, então, visitar alguns conhecidos com o intuito de “se localizar” em seu país. Foram duas casas, sendo a primeira, constituída por um general, esposa e adoráveis 3 filhas – onde fica sabendo que a mais nova delas está sendo “convidada” a casar-se com um rapaz (Gánia – também interessado por uma das mais belas mulheres conhecidas na Rússia, Nastássia Filíppovna); a segunda residência é da adorável e “louca”, Nastássia Filíppovna. Esta, por sua vez, além de assediada por Gánia, tem aos seus pés um “apaixonado/louco”, Rogójin – personagem que aparece no início do livro. Não bastassem os dois personagens supracitados, também apaixona-se, pela “adorável” Nastássia, o “idiota”, Míchkin.
Com personagens e diálogos muito bem escritos (e nada sensíveis), o “O Idiota” é sinônimo de ótima leitura. O que esperar, é Dostoievski.
Olha que cômico:
“O cão estava sobre os joelhos da dama de azul-claro. Era um bichinho pequenininho, assim como o meu punho fechado, todo preto, com manchas brancas, uma perfeita raridade! Tinha uma coleira de prata, com uma inscrição. E logo percebi que as damas ficaram aborrecidas com o meu charuto, é lógico. Uma delas se pôs a fitar-me com o seu lornhão de tartaruga. Fiquei impassível; e elas… nem bico! Se me dissessem alguma coisa, me advertissem, me pedissem, para que é que agente tem língua, afinal de contas? Mas estavam caladas. Subitamente, sem advertência, dou-lhe a minha palavra de honra, sem a menor advertência, como se inopinadamente tivesse ficado maluca, a tal de azul desmaiado me arrancou o charuto da boca e o atirou pela janela. O trem ia desembestado, a toda. Fitei-a, perplexo. Uma mulher selvagem, sim, positivamente uma mulher inteiramente do tipo selvagem, muito embora de maneiras, alta, bonitona, com faces rosadas, aliás rosadas até demais. Os olhos dela fulguravam, me hipnotizando. Sem proferir uma palavra, e com extraordinária cortesia, a mais perfeita, a mais refinada cortesia, eu, delicadamente, segurei o cachorrinho pela coleira, com dois dedos, assim, e o atirei pela janela afora, em busca… do meu charuto!… Ele apenas soltou um ganido! O trem ia por aí afora a toda velocidade.” (General Ardalión Aleksándrovich)