Semana passada aconteceu o Dia Internacional das Mulheres. Esta postagem deveria ter sido anterior, mas não acabei no momento em que desejava. Ainda assim, sempre é bom falar de seres humanos e, em especial, de mulheres. Não entrarei no lugar comum de elogiá-las com declarações pasteurizadas ou citar a importância que elas possuem para a própria vida humana. Inclusive penso que foi mais um dia de reflexão e luta do que propriamente de celebração.
Ao invés disso, vou falar em uma característica que une todas as mulheres que conheço: a ansiedade. Não falo no sentido ruim da palavra, ou até mesmo no sentido clínico, mas ansiedade no seu conceito mais amplo, que significa aquela sensação de instabilidade que cerca o recinto cada vez que uma mulher está presente, a ilusão de que várias mulheres simultâneas se escondem debaixo da mesma singular pele, a impressão de que elas nunca estão acomodadas ou satisfeitas. Uma ansiedade de viver, a certeza de que a pele só esconde placas tectônicas de múltiplas vontades, em constantes deslocamentos e explosões, em um terremoto cujo tremor sobe e desce – mas nunca acaba.
Esta ansiedade acabou sendo captada pela literatura. Não gosto muito em chamar de literatura feminina ou literatura feminista, sinto-me desconfortável com os rótulos que tentam aplicar em formas artísticas. Como já disse anteriormente, o único rótulo que penso ser aplicável na literatura é aquela que funciona e aquela que não funciona, e ambas usando somente o meu critério subjetivo, ou seja, é um rótulo particular. Em todo o caso, o que mais gosto na literatura escrita por mulheres é este caráter irascível e passional com que elas se entregam desde a primeira letra e arrastam até o final, como se fossem as batidas intermitentes nas teclas de um piano. Às vezes são só batidas e não música, mas, quando a melodia aflora, ela é terrível e única.
O mais interessante é constatar a presença de dois tipos de ansiedade permeando a escrita das mulheres. Uma delas foi descrita por Clarice Lispector e é uma ansiedade que se assemelha a um buraco negro. A mais absoluta inação; um mergulho repleto de angústia no silêncio da própria alma. É uma ansiedade debilitante. Nada se move, com exceção da própria pessoa, que sente os movimentos entorpecidos. A ansiedade é tão completa que a pessoa se sente como se estivesse caminhando em um deserto repleto de silêncio, de vazio, de ausência de vida. Em algum momento da vida (e, para a minha extrema vergonha, acredito ter sido em uma história do Flash), lembro que um personagem falou que o excesso absoluto de movimento leva à planitude. Se pensarmos bem, neste exato instante, nossos corpos estão em movimento insano, sangue entrando e saindo, células nascendo e morrendo, coração batendo e parando por milésimos de segundos antes de bater de novo, ar correndo e se esgueirando. Manter a concretude e manter o silêncio do espírito é uma luta contra a ansiedade do movimento desenfreado.
Mas é melhor deixar a Clarice Lispector falar, conforme o livro “Onde estivestes de noite” (1998):
“É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve, que é muda, mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve.”
Quando leio este trecho, sinto a ansiedade abrindo-se como a bocarra de Moby Dick e me engolfando em um novo mundo repleto de ausência. Clarice fala para não se esquecer do som da própria voz, a única coisa que a ansiedade de não-ser não lhe retirou por completo.

Por outro lado, surge a ansiedade frenética de Florbela Espanca, aquela sensação de ebulição e insatisfação sempre crescente. Algo tão intenso que ela sequer consegue classificar ou quantificar. Ela se sente preenchida por algo maior do que seu corpo, maior do que a própria vida. Ao contrário da angústia silenciosa de Clarice, a escritora portuguesa tenta abarcar o infinito com todas as suas asperezas, dores e glórias. É um movimento tão doloroso quanto mergulhar em um fosso branco; é o desespero de se sentir incapaz de aguentar a própria exigência consigo mesmo. Não é uma ansiedade debilitante, é a sensação de ser um buraco negro sugando toda a matéria ao redor até a expansão alcançar todo o universo. Está na “Carta n.º 147”, da Florbela Espanca:
“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades…sei lá de quê!”

Não sei se é uma história real, mas contam que perguntaram para Freud como fazer para entender as mulheres e ele teria admitido a incapacidade de realizar tamanha proeza. Falam muitas coisas de Freud, nem todas são verdadeiras. Não tenho a pretensão de entender as mulheres, mal e mal consigo me compreender. No entanto, com relação àquelas que conheço, vejo que oscilam entre estes dois tipos de ansiedade, entre o fosso silencioso de Clarice Lispector e a insatisfação frenética de Florbela Espanca. Esta vontade de viver tudo ao mesmo tempo faz com que a ansiedade seja o motor feminino e, ao mesmo tempo, sua maior glória e o seu maior castigo. Os ansiosos nunca ficam satisfeitos, nunca se contentam com nada, nunca repousam sobre os louros da vitória ou choram as cicatrizes da batalha.
No entanto, toda a ansiedade se justifica pelo receio que todos temos e raramente confessamos: o medo de saber qual rosto se esconde por trás do frenesi da água agitada, medo de olhar o próprio abismo interno e ver qual sombra existe no seu interior. Medoi, este, que Clarice Lispector novamente sintetizou muito bem: “Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu? Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim – enfim, mas que medo – de mim mesma.”