(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de julho de 2012)
Antes das mudanças do perfil urbano de Barcelona devido às Olímpiadas de 1992 (tão lamentadas pelo protagonista de O labirinto grego, de Manuel Vásquez Montalban), o narrador de O mistério da cripta amaldiçoada (El misterio de la cripta embrujada) se movimenta por toda a cidade como bom malandro que é: “Adentramos numa daquelas típicas ruas do centro histórico de Barcelona, tão envolventes, às quais só falta um teto para virarem bueiro…”
Estamos em meados dos anos 1970, Franco morreu e, mesmo não tendo mais a mesma “autoridade” que o regime moribundo lhe propiciara, o delegado Flores obriga nosso anti-herói, que está internado há cinco anos num manicômio, e que perdera um incisivo durante uma “conversinha” com o agente da lei (do qual era informante), a investigar o desaparecimento de uma menina que estudava num reputado internato dirigido por freiras. Na verdade, é o segundo desaparecimento. Anos antes, acontecera idêntico incidente, entretanto a averiguação policial fora truncada pela reaparição inesperada da vítima, que alegava não se lembrar de nada. Havia um cadáver (neste segundo desaparecimento também haverá, o de um marinheiro sueco, que aparece em vários lugares) e tudo fora abafado, em prol da fachada de respeitabilidade das famílias burguesas católicas do franquismo.
A “moral” do regime está bem caracterizada (através da hipérbole, bem entendido) pela descrição que o jardineiro do internato (aposentado compulsoriamente após o primeiro incidente) faz do seu casamento: “Nunca fizemos uso do matrimônio, minha esposa e eu. À moda antiga. Hoje em dia o pessoal casa para poder fazer sacanagem…bem sabe Deus que às vezes nos foi difícil resistir à tentação. Imagine o senhor: trinta anos dormindo juntos nesse catre tão estreito. O Altíssimo nos deu força. Quando as paixões estavam a ponto de vencer-nos, eu batia na minha esposa com o cinto e ela me acertava com o ferro de passar na cabeça”.
O narrador, maltrapilho, malcheiroso (e provavelmente mentiroso) nos conta suas andanças e peripécias para descobrir o segredo do labirinto (não-grego), a que se chega através de uma cripta no internato. Embora sua mente tortuosa e os eflúvios do éter possam desvirtuar um pouco a lógica narrativa tradicional…
Pois o que faz toda a diferença de O mistério da cripta amaldiçoada é a linguagem criada por Eduardo Mendoza nesse que era o seu segundo romance (publicado em 1979), aos 36 anos, após sua estreia ter sido muito celebrada e bem-sucedida (em 1975, meses antes da morte de Franco, com A verdade sobre o caso Savolta).
O inspirado autor espanhol utiliza um tom gaiato para seu personagem, que mistura um arremedo delicioso da linguagem formal e circunlocutória das áreas da psicologia, da jurisprudência e da etiqueta social, com inversões de fórmulas-padrão (“O colégio das madres lazaristas, como você sem dúvida ignora”). Como diz Adelto Gonçaves muito bem na sua apresentação, são tonterías, uma fala de bobo da corte, de maluco beleza, que (imagino o impacto à época) dão a esse Mistério da Cripta Amaldiçoada um tremendo frescor moleque, um falso ar de inconsequência: “Enquanto pisoteava as baratas que corriam pela cama, não tive como não lembrar da cela do manicômio, tão higiênica, e confesso que a nostalgia me tentou. Mas não existe bem maior, dizem, que a liberdade, e não era o caso de menosprezá-la, agora que desfrutava dela. Com esse consolo, enfiei-me na cama e tentei dormir repetindo para mim mesmo a hora em que queria acordar, pois sei que o subconsciente, além de desvirtuar nossa infância, confundir nossos afetos, lembrar-nos do que ansiamos esquecer, revelar-nos nossa abjeta condição e destroçar-nos, em suma, a vida, quando lhe dá na telha e a título de compensação, faz as vezes de despertador”.
Tivemos por aqui em 1994 algo similar, quando José Roberto Torero apareceu com O Chalaça e seu cadinho de alta diversão e irreverência que transita muito bem entre uma leitura descompromissada, como puro entretenimento, e um uso paródico poderoso da linguagem “séria”, sem cair no escracho ou no pastiche. Infelizmente, Torero parece ter perdido esse ímpeto na sua produção mais recente, e se rendido ao besteirol, Enquanto isso, o autor espanhol continuou a exercitar sua rara verve. Basta comparar O evangelho de Barrabás e A assombrosa viagem de Pompônio Flato.
Esperemos que a Planeta lance as outras aventuras do “louquinho” de Mendoza (salvo engano, são mais três), e que elas encontrem se não o mesmo, um tradutor tão hábil quanto Luis Reyes Gil.






