Unigamia
autorreflexão, saúde mental, solidão, diálogo interno, comportamento humano
Ilustração de Ligia Zilbersztejn Auto amor em doses cavalares não faz bem. Imagine falar mal de mim para quem está do outro lado do espelho? Matheus Lopes Quirino É um casamento insuportável. Meu comigo mesmo. Como vi pegar em certos países da pessoa se apaixonar por si e, arrebatada, pedir a própria mão em casamento. Usaria ela um anel na direita, outro na esquerda? Por mais exagerado que pareça, auto amor em doses cavalares não faz bem. Imagine falar mal de mim para quem está do outro lado do espelho? Reflexos à parte, tenho prestado atenção que, quanto mais no meu pé, pior fica a convivência, como num casamento de anos. Não posso dar um passo falso e pronto: lá está ele atrás de mim. Vivo um conturbado processo em que preciso me explicar para minha própria sombra, para onde vou antes de girar a chave de metal no miolo oval do portão. Pasmem, pedir autorização e dinheiro para tomar um lanche, caso dê vontade. Sigo de olho, me policiando, para que não pegue um caminho que não agrade o outro eu, que é ninguém mais do que eu mesmo. Quando vou ao meu encontro, todos os dias nas escovações dentárias, analiso o quão estranho é um sujeito olhar o outro escovar os dentes. Pelo menos não tem ninguém me olhando fazer o número dois… será? Desde ontem comecei a contabilizar quantos perdões concedo a mim, justificando-me em argumentos que eu mesmo sei onde começam, como terminam, e que não valem muito. Nas minhas mãos, claro, tudo é perdoado. Um ciclo vicioso que precisa ser quebrado com um terceiro elemento que, olhando de fora este casamento ambíguo, venha e se aposse do lugar que eu ocupo em cinquenta por cento da minha rotina. Tem dias que cem. Estou cheio de mim. Poligamia, nessa equação, não é uma opção. Tenho ciúmes, até das crises. Quando não me resolvo, volto e penso um instante em como evitar mais um círculo vicioso. Entro em um debate comigo mesmo. Às vezes o dia todo. Não me estapeio, porque dói. Meu eu ia sofrer, desnecessário, penitência que o meu outro eu tem de pagar. Me esforço para compreender meu outro lado. Ele, ao mesmo tempo, não dá trégua. Como se fosse eu o vassalo desse engenho, e meu patrão açoitasse o chicote para que eu não continue a dr, um monólogo familiar em uníssono; no caso a união unogâmica (você com você mesmo!) é não entrar em problematizações maiores na hora de dormir. Boa noite, boa noite. O importante é não desgastar Tomo banho comigo, almoço, janto, tomo café da manhã, faço as necessidades. Sento para trabalhar, cá estou eu. Águo as plantas em minha companhia. As cebolas picadas, são meus olhos que ardem. Os puns escapados, minha repreensão para comigo. Na leitura dos textos difíceis, meu eu diabinho incentiva largar, o outro, persistir. Como Jekyll e Hyde, um terceiro eu tenta fazer concessões, mas ele aparece raramente. Quando preciso de paz na hora de dormir procuro pensar o quanto menos na minha companhia. Afinal, ela dorme ao lado. E vai que ela escuta? Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino
Texto originalmente publicado em Revista Fina