Estou no restaurante. Enquanto aguardo o preparo da minha refeição, presto atenção involuntária na mesa ao lado. A mulher ainda jovem conversa com um menino de cinco, seis anos: com voz lenta, as palavras saindo devagar para que o menino compreenda e não fique em dúvida, a senhora anuncia que ele precisará deixar a escolinha, pois a mamãe vai ter que mudar de emprego, mas, na outra cidade, ele entrará em outra escolinha, com novos coleguinhas. O menino acompanha todo o esforço discursivo da sua mãe, mas parece não estar entendendo. Quando ela pergunta, pela enésima vez, se está tudo bem, a criança dispara: “Não vou sair da escola. A Gabi estuda nela.” Por esta a mãe não esperava, tanto que a sua única reação foi perguntar quem era a Gabi. O menino suspirou, abrindo os braços para dar mais inflexão na frase: “A Gabi, mãe, a Gabi é o meu país.” Não lembro quando era pequeno, mas deve ser angustiante a sensação de tentar capturar um sentimento gigantesco, que não cabe em palavras, para uma pessoa que ainda está com o léxico em formação. Como um menino poderia definir a importância que a Gabi tem na vida dele? Qualquer pessoa pensaria em uma comparação, e não raro um clichê: “a Gabi é como o sol da minha vida”. O menino foi mais audaz: ele definiu o sentimento. Não comparou a Gabi com outra coisa, pois a menina é incomparável. Com a certeza de quem sente, ele disse aquilo que a sua coleguinha representava. A mãe do menino desandou a rir. A risada é a melhor forma de lidar com o inesperado. Se tivesse pensado melhor na frase, entenderia que existe mais sabedoria ali do que imaginava. A Gabi o cerca por todos os lados. Ela é o centro do universo de todos que convivem na sua esfera. Mesmo sem saber, as pessoas estão sempre pensando na favorita do menino. Eles se preocupam com ela, amam-na simplesmente por estarem próximas e, apesar de ralharem de forma ocasional com a Gabi, sentem orgulho de a conhecerem. A Gabi é o ar que os outros respiram, a chuva que cai, o sol, a lua. O menino anda, almoça e brinca sempre com o pensamento naquela que lhe rodeia. Parece lógico que a Gabi seja um país. A menina anda pela rua e nem desconfia que, no universo de outra pessoa, em um curto intervalo de vida, já é tão importante que se transformou em um país. Virou alguém tão incrível que fez um menino desafiar a autoridade materna e a lógica da vida moderna para lutar pelo seu país. A Gabi nunca vai saber, mas é uma menina de muita sorte. Devemos ser práticos. É uma batalha fadada ao fracasso. A primeira de muitas desilusões que aguardam o menino: perder o país, ver o eixo em que se desloca desaparecer no tempo. Não dá para vencer todas as lutas por aquilo que amamos. Amar também é perder. Resta um consolo, ainda que tênue: talvez a vida seja realmente isto. Talvez sejamos seres deslocando-se no mundo, ilhas soltas, esperando encontrar o país correto, aquele que dará algum sentido. Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo