![]() |
| Fotografias da minha autoria |
«Rapaz conhece rapaz»
A literatura é uma porta que nos separa da realidade, permitindo-nos explorar universos alternativos, mas também é um espelho daquilo que a caracteriza, daquilo que emociona, que inquieta e que é necessário reconstruir. É por isso que um livro é uma arma tão poderosa: porque nos obriga a refletir sobre a vida, compreendendo que a sua perspetiva pode não ser suficiente e mostrando-nos que há muros para quebrar.
Quando, em 2021, participei no Ler a Diferença, projeto da Elga Fontes, fi-lo consciente da importância de abraçar leituras mais inclusivas, que normalizem vozes distintas. No mês em que se celebra o orgulho LGBTQIA+, arrisquei na novela gráfica de Alice Oseman e descobri que Heartstopper tem uma das mensagens mais amorosas e valiosas com que me cruzei. Após ler o primeiro livro, quis transitar rapidamente para os seguintes, porque é crucial existirem histórias desta magnitude: que, de um modo descomplicado, desconstruam estereótipos, sejam realistas [mesmo partindo da ficção] e apostem na representatividade.
HEARTSTOPPER VOLUME 1

Abre caminho para uma série de questões acerca das nossas inseguranças, da adolescência, do peso, da necessidade de rótulos e da gestão de sentimentos ambíguos, que nos fazem analisar a nossa essência. Em simultâneo, mostra-nos uma amizade a ser construída com os alicerces certos; mostra-nos o medo da não correspondência e os perigos de viver [n]um romance abusivo. E leva-nos por uma viagem de aceitação.
HEARTSTOPPER VOLUME 2

Torna percetível que cada um precisa de tempo, espaço e apoio para se conhecer; que é perfeitamente natural existirem dúvidas e sentirmo-nos perdidos, porque nada é linear neste processo de crescimento, de construção da nossa identidade. Apesar disso, há sempre alguém para nos dar a mão, porque respeita o nosso silêncio e as nossas reservas. E isso é um enorme sinal de amor, além de ser uma força extra para superar a maldade.
HEARTSTOPPER VOLUME 3

Os efeitos do bullying e a automutilação têm um peso inegável neste volume. Em simultâneo, há elos de amizade que são colocados à prova, há relacionamentos que surgem em paralelo e há uma pergunta bastante pertinente a ecoar: um heterossexual não tem de se assumir para a sociedade, porque é que um homossexual tem de o fazer? Qual é a necessidade de prolongar esta dualidade de critérios, que não é mais do que um pretexto de discriminação? É ainda nesta parte que se reforça a abordagem sobre distúrbios alimentares.
HEARTSTOPPER VOLUME 4

Este volume é de uma importância gigantesca, porque trata a saúde mental com consciência, com respeito e de várias perspetivas, visto que é um assunto que não afeta apenas a pessoa em si. E creio que parte desta importância passa pelo facto de não romantizar as suas ramificações: porque nem sempre fica tudo bem, porque nem sempre é fácil reconhecer um problema e pedir ajuda, porque nem sempre é pacífico estar de fora, a ver aqueles que amamos a sofrer, sentindo-nos impotentes. E nós, enquanto leitores, sentimos cada fragmento, cada dúvida, cada pulsar de hesitação; sentimos o amor que estas relações transbordam, mas «o amor não cura uma doença mental» - apenas nos deixa um pouco mais predispostos para encontrar ferramentas que ajudem os nossos, para que percebam, no seu tempo certo, que não caminham sozinhos.

Heartstopper é uma autêntica caixinha de surpresas, que nos incentiva a conversar, abertamente, sobre temas delicados e que permanecem tabu. Embora também tenha a sua quota-parte de entretenimento, há uma responsabilidade social patente na escrita, nas ilustrações e nas entrelinhas. A leitura destas obras não substitui, naturalmente, a ajuda de profissionais competentes e especializados, que deve ser procurada sem receio de represálias, porque é a nossa saúde e o nosso bem-estar que estão em causa. No entanto, pode facilitar a compreensão de certos sentimentos e pode ser o impulso para darmos mais um passo em frente.
Ninguém tem o direito de nos diminuir, de nos fazer desaparecer. E o Nick, o Charlie, o Gangue de Paris são o rosto dessa resiliência. Portanto, existirem histórias como a que Alice Oseman fez nascer é essencial, porque nos dão esperança para o futuro - enquanto indivíduo e sociedade. E isso só pode ser um ato de resistência.
