(O Rastro dos Cantos, de Bruce Chatwin)
Poemas descritivos de uma geografia são um gênero antigo. Poderíamos chamá-los de cartografias literárias, porque equivalem a um mapa de palavras, mnemonicamente dispostas em versos bons de decorar, para que seu encadeamento não se perca nem se confunda. Recitando baixinho o poema, o viajante poderá se orientar, saber por onde está passando, saber o que vem depois.
“O Rio” (1953), de João Cabral, é descrito de forma cabal pelo seu subtítulo: “Relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife”. Cronologicamente se situa entre “O cão sem plumas”, que é um retrato puramente poético do mesmo rio, e “Morte e vida severina”, descrição da viagem que fazem os retirantes num percurso parecido.
Reza a lenda que o poeta compôs o poema no Rio de Janeiro, com o auxílio da mapoteca do Itamaraty. (Me pergunto quantos poetas de hoje em dia se dariam o trabalho de fazer uma pesquisa para escrever um poema.)
Textos assim, em que o autor leva o leitor a percorrer em mente um espaço físico, são batizados às vezes de “itinerários líricos”, como o que Jomar Morais Souto fez em verso para a cidade de João Pessoa, e o que José Nêumanne fez em prosa para a cidade de Campina.
Frederico Pernambucano de Mello (Guerreiros do Sol) lembra o poema de Francisco das Chagas Batista, “A política de Antonio Silvino”, de 1908, repleto de “fidelidade microgeográfica”:
Santa Rita, Espírito Santo
Mamanguape, Mulungu
Pilar, Sapé, Guarabira
São Miguel de Traipu
Serra da Raiz, Caiçara
Bethlém, Curimataú.
Poemas enumerativos, catalográficos, que constituem, para o homem do campo sem alfabetização e sem mapas, uma espécie de Atlas poético a que recorre quando quer checar a existência de um nome, e sua relação com os que lhe estão nas vizinhanças.
Em seu magnífico livro O Rastro dos Cantos (“Songlines”, 1980; no Brasil, Companhia das Letras, 1996, trad. Bernardo Carvalho), Bruce Chatwin estuda a mitologia dos aborígenes australianos, cujo mundo foi criado através de uma canção, ou de um poema.
Para os aborígenes, os Ancestrais primitivos dormiam sob a terra e foram despertados pelo sol. Cada ancestral de cada coisa viva deu origem a uma espécie: o Homem Cobra, o Homem Cacatua, etc. Rompendo a crosta da terra eles se puseram em marcha, dizendo: “Eu Sou!” Eu sou Formiga. Eu sou Pássaro. Eu sou Cobra. E assim por diante.
A cada passo dado, eles pronunciavam outro nome, batizando assim os rios, as pedras, os arbustos. No momento em que diziam um verso com o nome daquela coisa, a coisa passava a existir.
Segundo Chatwin as “songlines” são estes cantos intermináveis, que reproduzem, tanto na letra quanto na melodia, o percurso desses Ancestrais pelo continente. Mesmo ouvindo o canto no idioma de uma tribo que desconhece, um aborígene seria capaz de reconhecer, pelo formato da melodia, o trecho que está sendo cantado – se é um rio, uma baía, uma lagoa nova, uma lagoa seca, um mato grosso, um belo horizonte, uma serra talhada, uma pedra lavrada, uma campina grande.
1771) Os Atlas Poéticos (12.11.2008)
cartografia literária, poesia brasileira, mitologia aborígene, geografia, literatura comparada
Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo
Leia também
- Poesia em Casa – As coordenadas do mapa - Estado da Arte
- Cantiga Sertaneza
- ‘Viagem do recado’, de José Miguel Wisnik: entre o ‘Recado do Morro’ e a Trilha de Lagoa Santa
- BRINCANDO DE FAZ DE CONTA NO CORAÇÃO DO MUNDO (Edih Longo)
- Novo título de Guilherme Gontijo Flores, Potlatch figura transformações e ausências do espaco
