Fotografia da minha autoria

«Quando uma criança não volta para casa, até os mais próximos se tornam suspeitos»

Gatilhos: Morte, Alcoolismo, Violência, Negligência, Cenas e Linguagem Explícita

A Susana Piedade foi uma das autoras que escolhi para a edição de 2023 do Alma Lusitana. Uma vez que fiquei completamente rendida ao Três Mulheres no Beiral, o seu manuscrito mais recente, aproveitei a Feira do Livro do Porto para adquirir a segunda obra publicada e, desta forma, continuar a descobrir a sua escrita.

PERDA, CULPA E UMA AURA MISTERIOSA

O Lugar das Coisas Perdidas passa-se numa pacata vila da província, que se vê em alvoroço quando «uma criança desaparece misteriosamente a caminho da escola». O choque é rápido a propagar-se, bem como o sentido de comunidade, atendendo a que a população se disponibiliza para ajudar Mariana, a mãe, a encontrar Alice, a filha. O problema é que, quase ao mesmo tempo, o julgamento, as intrigas e a desconfiança vêm inflamar os ânimos e desenterrar histórias passadas. De repente, o culpado pode ser qualquer um.

«E, às vezes, o medo começa por nos atormentar em sonhos. Como naquela noite»

Quando o meio é pequeno, praticamente familiar, quando parece que já se procurou em todos os recantos disponíveis e se colocaram todas as perguntas aos habitantes, como é que se encontram respostas? Como é que não se perde a esperança e a sanidade? Acima de tudo, como é que a vida pode continuar o seu curso natural? Isto porque existe alguém que sente o mundo a ruir e a ausência de certezas é ainda mais sufocante. Há medida que a narrativa avança, o mistério e a culpa adensam-se, transportando-nos para o centro da ação.

«Ninguém sabe ao certo o que passa pela cabeça de quem se vai desligando do mundo»

A escrita da autora consegue ser poética e relacionável, por isso é que nos sentimos como parte daquele todo, por isso é que sentimos as dores, o desnorte e o medo. Naquele fatídico dia, todos tiveram comportamentos estranhos, questionáveis e compreendemos que, apesar de as personagens acharem que se conhecem bem, cada uma delas tem muito a esconder. É através do desaparecimento de Alice que se explora esta ideia.

«Algumas pessoas são tempestades. Trazem consigo uma carga enorme e acabam sempre por desabar»

Basta um instante para que tudo mude e, durante a leitura, fiquei não só a refletir sobre o pânico anexo ao não regresso de uma criança a casa, instalando-se uma dúvida profunda, mas também sobre três notas: 1) a facilidade com que se torna alguém num bode expiatório, sobretudo, se já foi descredibilizado no passado; 2) o quanto desconhecemos quem nos rodeia; 3) os indícios que deixamos de ver, porque a rotina está enraizada em nós, porque há comportamentos tão automatizados que não nos apercebemos de pequenas mudanças, como se a ordem das coisas não tivesse sido quebrada. Depois, há a questão da segurança, que também influencia: onde não parece existir perigo, estamos muito mais relaxados, podemos baixar a guarda. Mas o perigo está à espreita. E os monstros não se escondem, desfilam «na rua, disfarçados de pessoas comuns».

«Às vezes só vemos o que queremos ver»

O Lugar das Coisas Perdidas deu-me vários murros no estômago, porque não sabemos até onde as pessoas estão dispostas a ir, porque não conhecemos as suas trevas, nem os segredos que guardam e que nos fragmentam, quando descobertos. Além disso, tem personagens credíveis. Por norma, não sou a maior entusiasta de finais em aberto, mas fez sentido. É a arte a imitar a vida, que nem sempre une as pontas soltas.

🎧 Música para acompanhar: Monstro 1103, A Garota Não

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