… como as pessoas conseguem dormir sabendo que um mundo terrível as espreita a cada dia, ansioso para cravar as suas garras e destroçá-las tão sem piedade quanto uma coruja destrincha os segredos e tripas da sua presa? … como se sentir tranquilo quando um grito desesperado no meio da noite impregnada de silêncio é subitamente interrompido em seu meio? … como manter a esperança quando um homem transformou o seu sangue em música e ela agora cavalga por aí, chutando cachorros, esgueirando-se por bueiros, cobiçando a sua vida? … como acreditar que tudo vai acabar bem quando Sennarcheb, rei da Assíria entre 704-681 a. C., jactou-se dos horrores e mortes que espalhou inscrevendo-os em um prisma de pedra (“O Prisma de Taylor”), um objeto que sobrevive aos séculos com sua memória de gritos, de sangue derramado, de cabeças arrancadas? O Prisma de Taylor … como podemos estar no mesmo mundo em que Cervantes e Dante conseguiram conter por muitos anos, dentro dos seus frágeis corpos, o Inferno e o Fantástico? … como respirar com inocência sabendo que uma borboleta tem uma vida mais interessante do que a nossa? … como sobreviver à ideia de que, um dia, Hieronymus Bosch caminhou pelas ruas embarradas da cidade, um outro e impossível universo se retorcendo dentro da sua cabeça? … como aceitar que a realidade nos esmaga se fomos justamente nós quem a criamos? … como acreditar que somos livres se não controlamos sequer as batidas de um coração, se somos impelidos a respirar, se o Destino faz o que bem deseja conosco, tratando-nos como tábuas perdidas de um naufrágio, … como não dar risada ao escutar o 3o movimento do Concerto para Trompa número 4 de Mozart? Aliás, como não sorrir por ter vivido na mesma realidade que abrigou Mozart, Tchaikovsky e Bach? … como saber se não estamos nesse exato momento em um labirinto, e ainda estamos indecisos se somos Teseu ou o Minotauro? … como não ter medo do que o dia nos reserva tão logo abrimos os olhos? … como amar sem saber que, na verdade, o verdadeiro amor mora existe somente quando o perdemos? … como saber se existem perguntas certas ou se estamos vagando por aí em busca de respostas inexistentes? Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo