12

Set22

Maria do Rosário Pedreira

Reli há uns tempos umas colectâneas de poesia espanhola do século XX organizadas e traduzidas por Joaquim Manuel Magalhães, que foi meu professor na Faculdade (e era muito melhor professor do que tradutor de castelhano, mas isso não importa muito para o que hoje me traz). Fiquei muito espantada pela quantidade de poemas que encontrei sobre o álcool, a bebida, as ressacas, os vomitanços...; e, claro, não pude deixar de pensar que os espanhóis não vão, como os portugueses, do trabalho para casa, passando normalmente um bocado com os colegas e amigos, bebendo uns vinitos e tapeando por aí, o que se pode ver em qualquer cidade espanhola, das grandes às pequenas. Pode ser que, por isso, acabem a beber mais do que a conta, sim. E, sendo escritores, que reflictam sobre o hábito ou o vício nas suas obras. Fiquei a pensar que, mesmo aqueles escritores portugueses que toda a gente diz que bebiam bastante (Cardoso Pires, por exemplo), raramente se referem a esse facto no que escrevem. Eu, pelo menos, não me consigo lembrar de nenhum romancista ou poeta que fale abertamente das suas bebedeiras ou ressacas. Será que é porque se sentem culpados e associam o álcool a algo negativo, e não ao convívio com os amigos, como no país aqui ao lado? Julgo que é o Eduardo Pitta que diz que a nossa literatura é mais macambúzia do que a espanhola, porque eles vivem muito mais do que nós. Será? Bem, a cada um a sua ressaca.