dos pedaços que são casa
poesia contemporânea portuguesa, reflexão sobre luto, processo de cura emocional, identidade e desapego, estética da melancolia
«É escuro e largo, tão puro, mas amargo»a voz do Zee ecoava entre os nossos silênciose os nossos olhares cruzam-se sempre que o ouvíamos a cantarno meio do delírio vi-me lá*talvez por lhe reconhecermos a escuridão de um passado que já não atormentaque somente nos despertaque nos mostra que tal como ele procuramos abrigo e o mundo é casa*por isso continuamos a navegarmesmo em contramãorecolhemos todos os pedaços que são casaque nos entrelaçam a uma paz mais certa e menos utópicae entre promessas que nos embalamsem dívidas para saldar de um tempo que fazemos por esqueceredificamos uma rota novasem lágrimas, sem mágoas, sem tormentosrepara como ainda escrevo no pluralporque ainda espero por quem já não está cáporque eu largo o mundo e fica o teu abraço*mas a vista do meu quarto já não te contempladas peças desiguais que fui acumulandopela ausência, pela descrença, pelo vazioaprendi a erguer alicerces de um lar onde não mais reconhecereiaquilo que fuimas mergulho madrugada dentroe mantenho-me à tona, a respirareste ar gélido de um delírio onde fiz morada__________________________________* versos da canção International Bizz, Van Zee
Texto originalmente publicado em Entre Margens