Estados Unidos, ano de 1945, final da Segunda Guerra Mundial. Esse é o plano de fundo da história de Jack Baker, um adolescente de 13 anos, órfão de mãe e com um relacionamento um tanto conturbado com o pai, que é capitão da Marinha. Justamente por causa dessa dificuldade no relacionamento, acredito eu, Jack vai estudar em um colégio interno para meninos no Maine, lugar que fica a quilômetros de distância da sua terra natal.

Jack é um menino como qualquer outro e, apesar de gostar de ficar sozinho com seus exemplares da National Geographic, não demora a se acostumar com sua nova vida. Obviamente sua no Morton Hill seria um eterno marasmo não fosse Early Auden, o garoto mais diferente do colégio que praticamente não frequenta as aulas — exceto as de Matemática, que vai de vez em quando —, vive num porão e detesta ser incomodado. Por mais que seus outros colegas o tivessem alertado da "esquisitice" do menino Auden, Jack acaba se aproximando dele.

Na minha concepção, tanto Jack quanto Early são protagonistas em Em Algum Lugar nas Estrelas. Jack é um menino que ainda não conseguiu aceitar a morte da mãe e, obviamente, não consegue lidar muito bem com a morte do pai, o que é natural, já que ele tem apenas 13 anos, né? Acho que justamente por isso que tive a sensação de que ele era muito mais velho que isso, provavelmente pelo fato dessa maturidade ter sido tão forçada. Early, em contrapartida, tem uma descrição mais infantilizada, apesar da sua inteligência absurda, mas todas as características dele têm explicação.

Obviamente em 1945 não existia a terminologia "autismo", mas os sinais para nós que vivemos em pleno século XXI deixam claro que o personagem faz parte do espectro autista. Extremamente metódico, inteligente, Early cultiva hábitos um tanto estranhos e apresenta talentos extraordinários, principalmente na área das exatas. Além disso, o menino acredita que Pi — sim, o número π que possui infinitas casas decimais — é uma pessoa que está perdida no meio de tantos números, que na verdade contam uma história, e que precisa ajudá-lo a achar o caminho de casa. É a partir dessa ideia que Early e Jack se embrenham nas florestas do Maine e vivem tantas aventuras que não conseguimos distinguir o que foi real e o que aconteceu na cabeça deles.

Senti uma inquietação crescer dentro de mim. Não queria ficar sozinho com a tristeza, a chuva e os fantasmas do passado. Sabia que seguiria Early onde quer que ele fosse. Ele pode se perder e me levar junto, mas é melhor do que ficar perdido e sozinho. Era o que eu pensava, pelo menos.

Existe um mistério por trás dessa aventura proposta por Early que vai se revelando aos poucos, mas que ajuda muito a manter o ritmo de leitura. Como todo livro infantil, algumas perguntas deixadas pelo caminho são respondidas de forma não muito críveis, dando aquela sensação de que foi resolvido fácil demais. Mas o plot twist que existe aqui quase consegue nos fazer esquecer dessas pequenas falhas, além das passagens emocionantes que foram extremamente bem trabalhadas pela autora, que soube descrever ricamente todas as situações que os meninos passavam.

Diferente do que eu pensava, Em Algum Lugar nas Estrelas é voltado para o público infantojuvenil e, apesar do tom fantasioso, fala sobre amizades verdadeiras. Possui uma narração muito simples, com passagens bem singelas que podem parecer bobas aos olhos mais críticos. Mesmo assim, é um livro que retrata situações muito delicadas e sensíveis, amizades, famílias, perdas, mas acima de tudo, o luto... Possui trechos muito bonitos que marcam essas características. Mostra a essência do ser humano de forma muito mágica, gostei muito de ver como essa história foi conduzida por Vanderpool, apesar do final um pouco corrido.

Apesar da escrita bonita, que mostra claramente o talento da autora, e da edição maravilhosa que conhecemos de todos os livros da DarkSide, não pude deixar de notar os inúmeros erros de tradução e digitação enquanto lia, problemas que deviam ser resolvidos durante a revisão do exemplar. É claro que isso não apaga a linda história da amizade entre Jack e Early, mas infelizmente atrapalha a dinâmica de leitura. Ademais, acredito que Em Algum Lugar nas Estrelas seja a história perfeita para os amantes de narrativas melancólicas.

Título Original: Navigating Early ✦ Autora: Clare Vanderpool

Páginas: 288 ✦ Tradução: ✦ Editora: DarkSide Books