Meu primeiro contato com Clare Vanderpool foi com, obviamente, Em Algum Lugar nas Estrelas. Gostei muito da escrita da autora, e foi isso que me impulsionou a ler Minha Vida Fora dos Trilhos, a primeiríssima obra escrita por ela. Nessa história, conhecemos Abilene Tucker, uma garota de 12 anos que é enviada pelo pai para passar o verão em uma cidadezinha do Kansas chamada Manifest — um lugar que, apesar de pequeno, é cheio de segredos — após um acidente que a deixou de cama por alguns dias. Nada extremamente sério, mas que deixou o pai da garotinha muito preocupado e fez com que ele decidisse que Abilene não devia acompanhá-lo no seu próximo trabalho.

Logo em sua primeira noite em Manifest, Abilene encontra no quarto em que está hospedada uma caixinha misteriosa, contendo objetos pessoais a cartas pertencentes a alguém que provavelmente habitou Manifest no passado. Mais do que isso, o rapaz a quem as cartas eram endereçadas pode ter dormido naquele mesmo quarto... Impulsionada pela curiosidade de saber quem eram aquelas pessoas e pela vontade de saber um pouco mais sobre o passado da cidade e, consequentemente, do seu pai, Abilene começa a percorrer diversas pistas com a ajuda de suas grandes amigas Lettie e Ruthanne.

Não são necessárias muitas páginas para entendermos que existe um "mistério" envolvendo Manifest, mas acredito que os leitores só são fisgados quando Abilene conhece a vidente Sadie, uma senhora que vive na cidade há muitos anos e sabe tudo o que acontece por lá. Os encontros entre as duas são sempre permeados por curiosidades sobre cidade, mas do ano de 1918 — a história se passa em 1936. Sendo assim, existem duas passagens de tempo em Minha Vida Fora dos Trilhos, e as duas impulsionam a trama de forma sensacional. Junto com as passagens de tempo, temos acesso também às cartas encontradas por Abilene e à uma coluna de fofocas produzida pela jornalista local Hattie Mae em 1918.

Quando há sofrimento, procuramos um motivo. E é mais fácil encontrar esse motivo dentro de si mesmo. — p. 143

Enquanto a narrativa está no presente, a gente ficam muito curiosa para saber se Abilene vai conseguir juntar as peças e descobrir o que realmente aconteceu em Manifest em 1918... E quando a senhora Sadie está narrando os fatos daquela época, um pouquinho de cada vez, é como se ela quisesse que nós, leitores, ajudássemos a protagonista e entender tudo o que aconteceu e, principalmente, qual a ligação de Manifest com Gideon, seu pai. Assim, as histórias contadas por Sadie, as cartas e a coluna de Hattie Mae formam um quebra-cabeça delicioso de ser montado. Não fica aquela coisa cansativa, que dá vontade de pular os pedaços, sabem?

Além do mais, Clare Vanderpool foi muito assertiva ao mesclar ficção com momentos históricos que realmente existiram. Por exemplo, um dos personagens que aparece em 1918 foi lutar na Primeira Guerra Mundial — e aí que entram as cartas que Abilene encontra em seu quarto. Além disso, as partes narradas no presente se passam durante a Grande Depressão dos Estados Unidos e o cenário foi muito bem construído. A pandemia da Gripe Espanhola também foi retratada pela autora, algo que achei bem interessante... Inclusive não foi difícil encontrar semelhanças com o que estamos vivendo no mundo em pleno século XXI, né?

O mais engraçado de tudo é que eu já tinha em mente o desfecho da história e não errei, mas por mais que eu tenha acertado, consegui me emocionar do mesmo jeito com o que aconteceu. Existem livros bons que são bons porque nos surpreendem, e existem livros bons porque são muito bem escritos e tocam o nosso coração, que é o caso de Minha Vida Fora dos Trilhos. Fiquei muito impressionada com a forma como a autora foi desatando todos os nós que deixou durante a história, sem deixar nenhuma ponta solta para o final. Incrível!

Eu gostei demais de Em Algum Lugar nas Estrelas, mas o que eu senti ao terminar Minha Vida Fora dos Trilhos é simplesmente indescritível. Fui totalmente conquistada pela inocência da protagonista, pela mensagem que Vanderpool entrega no final sobre a importância das amizades, da família e da união de uma comunidade que luta em prol do direito de todos. É uma história muito simplista, realmente, mas que entrega muito mais do que eu esperava. Recomendo de olhos fechados!

Título Original: Moon Over Manifest ✦ Autora: Clare Vanderpool

Tradução: Débora Isidoro ✦ Páginas: 320 ✦ Editora: DarkSide Books