Sempre me interesso por livros ambientados durante a Segunda Guerra Mundial, apesar de carregarem, quase sempre, uma história muito triste e pesada. Em Resistência, conhecemos a história das gêmeas Pearl e Stasha, de 12 anos de idade, que têm a infância roubada pelo terrível Dr. Mengele. Popularmente chamado de "Anjo da Morte", o médico nazista ficou conhecido por realizar experimentos terríveis com anões, grávidas, albinos, mas, principalmente, irmãos gêmeos.

As irmãs são como sombra uma da outra e sempre foram muito unidas. O livro é narrado sob o ponto de vista das duas, então temos a plena noção do que ambas estão sentindo. O que eu achei um pouco perturbador, no decorrer da leitura, é que Stasha tinha um desejo muito grande de ser a irmã, que sempre foi a preferida de todos. Pode parecer normal, mas essa fixação era tanta que elas ensaiavam para fazerem tudo igual e isso me incomodou demais. Não que seja um defeito do livro, mas gente, Stasha era muito possessiva em relação à Pearl. Então, apesar de termos todas a atrocidades do Dr. Mengele, Resistência foca muito mais na unidade das irmãs e em como elas lidam com toda a situação.

A ideia de que a maldade torna uma pessoa mais forte do que as pessoas boas é um equivoco muito comum.

A narrativa de Affinity Konar é extremamente delicada, principalmente por serem crianças narrando tantas coisas ruins. Justamente por esse fato é que não vemos os experimentos do Anjo da Morte tão explicitamente, mas sabemos que aconteceu — eu, particularmente, gostaria de ter visto mais. Stasha começa a ficar tão obsessiva pela "ciência" de Mengele que quase tudo sobre o assunto é mostrado na visão dela. Pearl, por sua vez, acaba ficando com as partes mais leves, contando mais sobre os seus sentimentos, as reações aos experimentos e as coisas ao seu redor. Mas não se enganem. Apesar da descrição leve, o conteúdo não deixa de ser impactante.

Fiz algumas pesquisas sobre o Dr. Mengele antes de escrever essa resenha e fiquei realmente aterrorizada. Ainda é difícil para mim aceitar que uma pessoa fez coisas tão desumanas em busca da perfeição genética. Seus procedimentos horrendos incluíram costurar irmãos nos pulsos e nas costas, na tentativa de criar irmãos siameses; extração de membros, sem anestesia e até mesmo testes de resistência, onde ele jogava as crianças vivas dentro de uma espécie de caldeirão fervendo. Ah, para deixar as coisas um pouco piores, Pearl e Stasha foram inspiradas nas irmãs Miriam e Eva Mozes, sobreviventes do Holocausto.

Não é atoa que Resistência foi considerado o livro do ano pela Amazon e pela Publishers Weekly. É o tipo de livro que a gente tem dificuldade em resenhar, porque é uma história que não dá para esquecer. É impossível não se questionar como existiram — e ainda existem — pessoas tão cruéis nesse mundo e a tristeza que a gente absorve dessa história é tão grande que não dá para explicar. Para mim, foi uma leitura importante pela sua reflexão: nunca é tarde para a gente sentir empatia e admirar todas as pessoas que conseguiram, de alguma forma, sair desse pesadelo.

Título Original: Mischling

Autora: Affinity Konar

Páginas: 320
Tradução: Alyda Sauer

Editora: Fábrica 231

Livro recebido em parceria com a editora