Livros de romances históricos não aparecem tanto nas minhas listas de lidos do ano, muito por eu preferir histórias mais juvenis, mas é um gênero que costumo gostar bastante — ainda que a maior parte das histórias seja bem difícil de digerir. Veludo chamou minha atenção logo de cara, porque é ambientado durante e após as Primeira e Segunda Guerras Mundiais... E se você procurar pelos termos na aba de pesquisas aqui do blog, vai notar que costumo me interessar muito por esses enredos, que costumam ter uma carga dramática muito grande.
Leia também:
✦ A Guerra que Salvou Minha Vida, de Kimberly Brubaker Bradley
✦ O Labirinto do Fauno, de Cornelia Funke & Guillermo del Toro
✦ Uma Vez, de Morris Gleitzman
Nessa trama, Fátima Sousa nos apresenta Peter Berger, um ambiciosíssimo médico alemão que não mede suas ações para conseguir o que quer. Desde muito novo apresenta um caráter dúbio, que é ressaltado quando se filia ao Partido Nazista — digamos que os ideais antissemitas do partido eram exatamente o que ele precisava para dar vazão aos seus próprios pensamentos — e se torna amigo íntimo de Adolf Hitler.
Sua trajetória acabou fazendo com que fosse enviado à Auschwitz, onde trabalharia com Josef Mengele e outros médicos na seleção das vítimas a serem mortas nas câmaras de gás e realizaria experimentos em humanos. Muito frio e calculista, nada parece ser capaz de mudá-lo ou fazê-lo sentir alguma coisa, incluindo sua esposa e seus três filhos, até que ocorre uma reviravolta que promete mudar tudo.
Peter Berger é um personagem extremamente bem construído, porque a narrativa é feita de uma forma que o acompanhamos do nascimento à fase adulta. Achei interessantíssimo que desde muito pequeno Peter demonstrava sinais de que era "diferente", como se algo muito ruim tomasse conta dele desde a primeira infância. Justamente por isso muitas cenas são extremamente difíceis, envolvendo não só racismo, mas assassinatos e estupros. Então, de certa forma, todo o caminho para nos apresentar o protagonista é feito de forma que seja muito fácil odiá-lo.
Acho que por essas e outras Veludo não é um livro fácil. Não só pelas cenas aterrorizantes envolvendo Peter, mas também pelo contexto em que elas acontecem. Os diálogos são muito chocantes, principalmente a naturalidade com que falam sobre a morte de milhares de pessoas, como se fosse algo corriqueiro, que tivesse que acontecer por um bem maior. Foi muito difícil para mim ler essas coisas, e olha que não costumo me abalar facilmente. Por mais pesados que sejam, esses cenários e conversas só trouxeram mais verdade para a história.
Outra coisa que me fez pensar bastante durante a leitura foi a questão da criação. Quer dizer, até que ponto nossos pais são responsáveis por nosso caráter? Por exemplo, os pais de Peter eram totalmente avessos ao Partido Nazista e sempre passaram esses ideais para o filho, e mesmo assim ele optou por seguir uma ideologia tão horrível. Por que ele era assim? Aliás, por que tantas pessoas são assim, inclusive nos dias de hoje? Como se deixam enganar por discursos tão traiçoeiros?
Por causa dos inúmeros gatilhos, repito que esse livro não é para qualquer um. Foi escrito com o intuito de afrontar e causar sentimentos conflitantes, e com certeza ele faz isso. Peter é um personagem complexo com um desfecho mais complexo ainda, que pode não agradar a todos. Tenho certeza que é uma trama que me fará refletir por muito tempo. A quem interessar possa, Veludo está disponível gratuitamente no Kindle Unlimited!
Título Original: Veludo ✦ Autora: Fátima Sousa
Páginas: 494 ✦ Editora: Publicação independente
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