Minha única motivação para ler Uma Vez, do autor australiano Morris Gleitzman, foi o fato de o livro se passar na Segunda Guerra Mundial — não importa quantos livros eu leia sobre o assunto, eu nunca vou enjoar. Mas essa obra é um pouco diferenciada, pois ele proporciona um olhar diferente sobre o período citado, longe dos campos de concentração, mas ainda assim muitíssimo perto de muito sofrimento. 

Aqui, conhecemos a história de um garotinho chamado Felix Salinger, que mora num orfanato católico na Polônia, bem no boom da Segunda Guerra Mundial. Felix guarda muitos segredos, incluindo ser judeu, o fato de os pais estarem vivinhos da silva e que ele foi deixado ali apenas para se manter em segurança em segurança para que seus pais viajassem pelo mundo vendendo livros. Obviamente o pequenino não vê a hora de os pais voltarem para buscá-lo e retomar sua antiga rotina.

Tudo permanecia calmo e tranquilo após quase quatro anos, mas eis que um dia Felix encontra uma cenoura inteirinha na sua sopa e, é claro, em tempos de tanta escassez, aquilo só podia ser um sinal de que seus pais estavam voltando. Porém, por mais que quisesse esperar, em mais um dia normal no orfanato, Felix vê guardas usando livros judaicos para acender uma fogueira e entende que precisa avisar aos pais, já que depois do episódio a livraria da família corre um risco gigantesco. É à partir daí que começa a aventura do menino que só quer encontrar os pais em um país tomado por nazistas e pessoas de má fé, mas também de várias criaturas boas que só querem ajudar. 


Todo mundo merece ter alguma coisa boa na vida pelo menos uma vez.

Apesar da trama relativamente simples, Uma Vez é um livro extremamente forte e cheio de valores. Felix, um judeu de apenas 10 anos, é a personificação da inocência. Ele simplesmente não entende o que está acontecendo ao seu redor e ele não acredita de forma alguma que existam pessoas ruins no universo. Algumas vezes, a criança chegava a inventar história mirabolantes para driblar o que estava escancarado à sua frente, como encontrar um casal morto em sua casa. Às vezes eu não conseguia acreditar em tamanha ingenuidade. 

Provavelmente, o ponto mais alto do livro é a amizade entre Felix e Zelda, uma garotinha que ele mesmo resgata de um incêndio. A partir daí, o vínculo que eles criam — não se esqueçam da responsabilidade que foi imposta em Felix a partir daí — é tão grande que se tornam inseparáveis. Zelda é um show à parte. Apesar de ser bem mais nova que Felix, ela é muito inteligente e teimosa, e é muito difícil ludibriá-la. No decorrer das páginas, os amigos acabaram encontrando várias pessoas legais que, de verdade, me fizeram voltar a acreditar na humanidade. 

Esse livro de Morris Gleitzman entrou para a lista das 100 obras mais recomendadas para jovens segundo a BBC e o The Guardian e com certeza merece tal posto. O tema, apesar de impactante de difícil, como tudo relacionado à Segunda Guerra e ao Holocausto, foi tratado de uma forma muito leve. O que eu mais gosto nesse tipo de narrativa é que ela agrada até mesmo os leitores mais velhos e Uma Vez com certeza se encaixa nessa categoria.

Após fazer algumas pesquisas, descobri que a história de Felix e Zelda não para em Uma Vez. Em seu site, o autor fala um pouco das obras seguintes, que ainda não foram publicadas no Brasil: Then, Now, After e Soon. Além dessas informações, também é possível ler algumas histórias reais que inspiraram Gleitzman em seus livros. 

Título Original: Once

Autor: Morris Gleitzman

Páginas: 160

Tradução: Marília Garcia

Editora: Paz & Terra

Livro recebido em parceria com a editora