Em A Dominação Masculina Bordieu discute as origens dos papéis impostos para as mulheres e os homens na sociedade. Para tal, o autor relaciona a cultura ocidental com a cultura do povo Cabila — povo berbere, "homens livres", que habita tradicionalmente a região montanhosa da Cabília, no nordeste da Argélia. Tal povo acredita que as funções dos homens e das mulheres são tradicionalmente opostas e assimétricas, sendo o homem hierarquicamente superior —, tendo em vista principalmente o comportamento masculino. 

A partir do estudo, Bordieu expõe que a posição social da mulher desde os primórdios é de submissão, até que os movimentos feministas, que surgiram no século XX, aconteceram as primeiras mudanças reais. A inserção da mulher no mercado de trabalho, por exemplo, antes um direito exclusivamente dos homens, foi um ponto extremamente importante para nossa luta ganhar força. Ainda assim, de uma forma bastante sofisticada — e até bastante difícil, confesso —, ele mostra o quanto essa dominação masculina está imposta na sociedade mesmo nos dias de hoje. 

O triste é que nós mesmos não percebemos a maior parte dessa dominação, até porque muitas coisas não são tão óbvias como, por exemplo, a disparidade dos salários dos homens e das mulheres. Essa violência imperceptível, denominada simbólica, é aquela reproduzida socialmente principalmente através da linguagem e do pensamento. Quem nunca usou expressões como "homem não chora" ou "mulher tem que se dar ao respeito"? Coisas do tipo apenas provam como o machismo está dentro de todos nós, já que estamos sempre reproduzindo esse tipo de comportamento.

Obviamente nenhuma mulher tem culpa, até porque o ato de culpabilizar as mulheres é resultado dessa dominação. Bordieu afirma e nos faz compreender que essa opressão simbólica é tida como natural e muitas vezes é legitimada, fazendo com que haja essa reprodução coletiva, resultando, sempre, na promoção da soberania masculina.

Li muitas críticas à Bordieu justamente pelo fato de ser um homem falando sobre a dominação masculina e, mesmo reconhecendo a importância dos trabalhos feministas, foi acusado de ignorá-los. Eu, sinceramente, não sei me posicionar acerca do assunto, até porque acredito que os próprios homens são prisioneiros da própria dominação. Não concordei com muitas coisas citadas por ele, realmente, mas tampouco posso negar que não me abriu os horizontes.

Título Original: La Domination Masculine

Autor: Pierre Bourdieu

Páginas: 208

Tradução: Maria Helena Kühner
Editor: Bertrand Brasil

Livro recebido em parceria com a editora