Eu raramente assisto adaptações literárias antes de ler os livros que as inspiraram, mas fiz isso com Continência ao Amor. Primeiro porque eu estava muito curiosa, uma vez que o filme ficou durante semanas nos mais assistidos da Netflix, e segundo porque eu não tinha pretensão de ler o livro. Mas aí a dona Intrínseca me aparece com esse lançamento e eu não resisti, ainda mais porque as pessoas estavam falando muito que a obra original era inferior. Realmente o filme é melhor, mas vamos entender o porquê?

O enredo aposto que todos vocês conhecem: Cassandra Salazar é uma musicista que trabalha durante a noite em um bar enquanto corre atrás do seu sonho, que é fazer sucesso com sua banda, a The Loyal. Acontece que Cassie acabou de descobrir que tem diabetes e o tratamento nos Estados Unidos é caríssimo. Além das dívidas que já tem, ela não consegue comprar os medicamentos que precisa para se manter saudável — e tem gente que tem a audácia de criticar o SUS... Ao se reencontrar com Frankie, um amigo de infância que se alistou ao Exército, ela propõe que eles se casem para que ela possa ser incluída no plano de saúde, e dividiriam o dinheiro a mais que ele receberia por ter uma família. 

E é aí que Luke Morrow entra na história. Frankie recusa a proposta de Cassie, então ele se oferece para ocupar o lugar do amigo nesse casamento de fachada. A protagonista não sabe que Luke tem um passado conturbado, envolvendo abuso de drogas e dívidas altíssimas, e que justamente por causa disso precisa do dinheiro. Ou ele paga seu ex-traficante, ou ele morre. Simples assim. O desespero dos dois é tão grande que selam o acordo poucos dias antes do soldado partir para o exterior, mesmo sabendo das consequências se forem descobertos. E tudo ia muito bem, obrigada, até Luke sofrer um acidente grave em uma das suas missões e precisar voltar para casa. 

De início, o plano era que Cassie e Luke se divorciassem quando o mocinho retornasse para os Estados Unidos, mas um acidente muda tudo! Principalmente porque as pessoas estão de olho neles, incluindo a família de Luke, que não confia nada nele depois do seu problema com drogas. Dessa forma, os dois são obrigados a conviver para manter as aparências. E é aí que eu acredito que esteja o maior pecado da história: o livro promete que a convivência entre os protagonistas origine um sentimento verdadeiro, mas não é isso o que acontece na minha opinião.

Para que vocês entendam esse posicionamento, preciso dar um spoiler da narrativa. Enquanto Luke está servindo no exterior, Cassie começa um relacionamento com o baterista da banda. O problema para mim não é nem ela ter um namorado, afinal, o casamento é de fachada... Mas tinha mesmo necessidade? O casamento não precisa parecer real? Me incomodou o fato de Cassie ficar de rolê com o cara na vista de todo mundo, coisa que poderia trazer problemas tanto para ela quanto para Luke. Sem contar que, como ela vai se apaixonar por uma pessoa estando o tempo inteiro com outra? Não acho que Cassie e Luke conviveram tempo suficiente para se apaixonarem, sabem?

A narrativa de Continência ao Amor alterna os pontos de vista entre os protagonistas, e nas partes narradas por Cassie dá para perceber que ela não está nem aí para Luke... Luke, por sua vez, ainda demonstra sentir algo por ela, mas está tão chapado de medicamento para dor o tempo inteiro que também não me convenceu muito. Então como acreditar que eles estão apaixonados se passaram, sei lá, 90% do livro apenas se suportando? Ainda assim, não acho que o livro é essa mediocridade toda que tantos estão pintando. 

Nesse sentido, o filme homônimo ganha destaque. Ele faz justamente o que o livro não faz, que é desenvolver um pouco mais o relacionamento entre Luke e Cassie. É claro que a química entre Sofia Carson e Nicholas Galitzine ajudou bastante, mas o fato desse relacionamento paralelo não existir na adaptação fez toda a diferença. Quando Luke volta para os Estados Unidos e passa a morar com ela, realmente existe uma preocupação da Cassie com o bem-estar dele, eles realmente dividem um ambiente e não apenas coexistem nele, e não existe um outro alguém para empatar a convivência entre os protagonistas. Dessa forma é bem mais fácil acreditar que eles se apaixonam de verdade.

Existem outros detalhes que fizeram toda a diferença. Apesar do enredo geral ser bem semelhante, o filme dispensou o que eu considerei desnecessário no livro, fazendo a história ficar muito mais dinâmica. Por exemplo, além do que eu citei no parágrafo anterior, diferentemente do Luke do livro, o Luke do filme não abusa dos medicamentos e faz fisioterapia direitinho, então a cura não vem como um passe de mágica. Além disso, teve uma parte em específico que me chateou bastante no livro que foi a morte de um personagem muito importante. Ela existe no filme também, mas é tratada com muito mais emoção e delicadeza. 

Outro ponto que me ganhou demais no filme foi o relacionamento da Cassie com a mãe dela. São muito mais unidas e apesar da preocupação, Marisol não fica criticando constantemente as escolhas da filha como acontece no livro. Muitos dos embates acontecem porque Cassie quer ser uma cantora famosa e faz de tudo para que isso aconteça de verdade. Aliás, o ponto alto do filme está justamente nessa carreira da Cassie, tanto que o longa conta com quatro canções originais escritas por Sofia Carson. Eu não sou nenhuma crítica musical, mas achei bem fofinhas e elas ficam na cabeça demais — não paro de cantarolar Come Back Home desde que assisti a adaptação, rs.

Ah, dito tudo isso, queria deixar bem claro que essa não é a história de amor mais fantástica que já existiu. É um romancezinho bem água com açúcar, sem muitos altos e baixos e pouco profundo, para falar a verdade. Muitos dizem que é até um pouco fora da realidade, porque como acreditar que uma cantora feminista se apaixonaria profundamente por um jovem fuzileiro de direita? A grande questão é que para o bem ou para o mal, Continência ao Amor conquistou o coração do público. Eu, por exemplo, sou uma romântica incurável, então falou sobre qualquer clichezinho em que os personagens ficam juntos mesmo com todas as adversidades eu tô curtindo. Reafirmo que não sou parâmetro para nada, mas gostei a ponto de ignorar que muitas vezes Luke é um completo babaca, então não me julguem. Netfliz mais uma vez servindo a população com um filminho bem de boas, tá de parabéns.

Título Original: Purple Hearts ✦ Autora: Tess Wakefield

Páginas: 336 ✦ Tradução: Gabriela Araújo, Isadora Prospero, Laura Pohl & Sofia Soter 

Editora: Intrínseca

Livro recebido em parceria com a editora