Doadores de sono é o mais novo livro da escritora Karen Russell e nos transporta para tempos e situações sombrias. Com um estilo totalmente triste e melancólico somos guiados através da história de Trish uma mulher que apesar de pouca idade, já passou por grandes perdas, incluindo sua irmã. Acometida por uma doença que é carregada de mistério do início ao fim, Dori, irmã de Trish, foi acometida pelo mal da insônia. Diferente da forma de insônia que conhecemos, aqui presenciamos seu estágio mais Hardcore: pessoas chegam a passar meses ou até mesmo anos sem dormir, o que os leva a desnutrição, desidratação e até uma possível (e não rara) morte.
Por ser uma obra curta (apenas 166 páginas) espera-se um avanço rápido e uma história absurdamente corrida, o que não é o caso. Pra quem chegou aqui em busca de lutas, batalhas, diálogos épicos, emoções à flor da pele como estamos acostumados em livros do tipo Young Adult vai encontrar uma grande decepção. As únicas palavras que acho que podem ser usadas na descrição deste livro é “confuso e introspectivo”.
[...] neurocientistas concluíram que, para uma parcela significativa da população do país, a função sinalizadora do neuropeptídeo orexina se deteriorou. A deficiência foi associada à narcolepsia em seres humanos, mas esta disfunção causa o efeito oposto: um estado insustentável de superexcitação. O sono se torna impossível.
Quando uma crise de insônia ataca os cidadãos norte-americanos Trish se vê junto com uma das primeiras vítimas dessa nova epidemia, sua própria irmã, Dori, que morre por conta da privação de sono. Com um fardo tão grande em seus ombros, Trish passa a integrar um grupo de doação, chamado “Corpo do Sono” que tem por objetivo recrutar pessoas saudáveis de sono estável e transferir essa capacidade de dormir para outras pessoas através de doações de sono, feitas por meio de um maquinário revolucionário.
Tudo muda quando se encontra uma nova doadora, a “Bebê A”, que contém dentro de seu pequeno corpo de alguns meses um sono tão puro que passa a ser considerada como doadora universal. Qualquer pessoa pode receber uma transfusão do Bebê A e acredita-se que seu sono é a salvação para todos aqueles que perderam essa capacidade, os Orexinas.
Mas, como sempre, um conflito surge para atrapalhar a vida de todos os Orexinas e doadores. Quando um doador conhecido apenas por Doador Q realiza sua doação, acaba-se por contaminar vários estoques e pessoas com príons de pesadelo, um pesadelo tão pesado e ruim que leva as pessoas a preferirem se manter acordadas e morrer por isso do que voltar a dormir e reviver todo o drama encontrado no sonho ruim que foi recebido.
Que alivio, eu penso, nunca mais ter de se preocupar com a possibilidade de que, talvez, seja você quem anda envenenando a oferta de sono da nação. Será que mais alguém tem essa fantasia?
A obra inteira carrega personagens extremamente característicos, e a história toda explora bastante a personalidade de cada um e o próprio sofrimento em meio à epidemia: seja trish por conta de sua falecida irmã, seja a Bebê A por conta de suas altas taxas de doação ou mesmo o senhor e a senhora Harkonnen, os pais da bebê.
Explora-se com grande intensidade o sentimento de caridade e o medo da perda de entens queridos. Com uma grande alusão a doação de sangue, (o que é um pouco óbvio) vemos a importância que um simples ato pode gerar na sociedade de uma forma geral e em alguns seres humanos mais específicos que poderão viver um dia mais graças as doações realizadas.
De forma geral é um livro bom pra quem gosta de longas descrições e imaginações. Para aqueles que prefiram uma obra de grandes emoções deve ficar longe do título. Explorando a mente humana, a ganância e nossa capacidade de sermos bons, temos em mãos um verdadeiro presente, instigante e cheio de mistério, que apesar de um final fraco, possui um verdadeiro compilado sobre a humanidade e seus sentimentos.
Título Original: Sleep Donation
Autora: Karen Russell
Páginas: 168
Tradução: Cláudia Costa Guimarães
Editora: Record
Livro recebido em parceria com a editora
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