É inegável que a sinopse de Marlena instiga até mesmo os leitores mais críticos. O enredo tem de tudo para ser fluido e interessante, mas a autora acabou pecando em certos pontos. Começamos a história com Cat, uma das protagonistas, se mudando para um "rancho" ao lado de onde mora Marlena, após o seu pai ter abandonado sua família. As duas se tornam amigas rapidamente, não sei se por falta de opção ou destino, afinal.
Cat via Marlena como uma pessoa que ela desejava ser: destemida, determinada, cheia de vida. Mas a verdade por trás dessa perfeição toda é uma vida perigosa, regada à álcool e drogas, além de uma família extremamente problemática. Como consequência, essa amizade trouxe uma influência negativa para Cat e acabou terminando de uma forma trágica, com Marlena morta — se acalmem que a história já começa com esse fato!
Assim, o livro intercala lembranças narradas por uma Cat mais velha, já casada, e visões de sua vida atual. Apesar disso, a história inteira gira em torno de Marlena. Cat nunca engoliu de fato o afogamento da amiga e se sente culpada por isso, já que os problemas dela sempre estavam escancarados para todo mundo e ela nunca fez nada para ajudar. Em paralelo, Cat culpa Marlena pelas consequências que essa amizade tão abusiva trouxeram para sua vida.
Quero cuspir no seu rosto e me afastar de tudo o que ela me fez fazer, de todas as mudanças que sofri, quero tanto isso que, por um momento, isso parece possível e quase faço. Enfio as mãos debaixo das coxas, para que ela não veja que estão tremendo, e olho fixo para o aromatizante vencido de pinho. Ele vibra feito louco, mesmo com o carro parado.
Minhas expectativas quando iniciei a leitura de Marlena estavam nas alturas. Numa primeira impressão da história, a gente imagina que existirá um mistério a ser desvendado, mas não é nada disso que acontece. No meu ponto de vista, somos apresentados a uma história totalmente parada, sem nenhuma reviravolta considerável, o que pode deixar a narrativa cansativa para muitos, como aconteceu comigo.
Não consegui me apegar e nenhum personagem. Todos, incluindo as protagonistas, são muito pouco construídos. Não senti que cada um possuísse uma personalidade única e inesquecível. Por exemplo, Cat me pareceu mais uma pessoa influenciável que fazia tudo o que a amiga mandasse, mesmo se não tivesse vontade daquilo. Se não houve uma aprofundação nos personagens principais, posso dizer que os secundários foram praticamente esquecidos.
Apesar disso, considero a escrita de Julie Buntin interessante. Na contracapa do livro há uma nota dizendo que o livro é baseado na vida da autora, e não é qualquer escritor que consegue narrar sua própria história assim, sem titubear. O tema retratado no livro também é super atual e plausível, que mostra como a culpa ou o remorso podem pesar o nosso futuro.
Marlena não é um livro ruim. O enredo é muito bom e, assim como vários outros livros do gênero, abre um leque para vários desenvolvimentos e desfechos diferentes, mas infelizmente Julie Buntin acabou cometendo alguns deslizes — o que considero normal em escritores iniciantes.
Título Original: Marlena
Autora: Julie Buntin
Páginas: 304
Tradução: Elisa Nazarian
Editora: Fábrica 231
Livro recebido em parceria com a editora
