Coraline é uma das obras mais famosas do Neil Gaiman, conhecido justamente por escrever livros de fantasia incríveis — que curiosamente saberíamos que foi ele que escreveu mesmo se não tivesse seu nome estampado nas capas, de tão característica que a narrativa dele é. Publicado pela primeira vez em 2002, Coraline é uma espécie de terror infantojuvenil que conta a história de uma menininha de espírito aventureiro que acaba de se mudar para um apartamento em uma mansão que divide com alguns vizinhos.
Coraline é filha única e brinca muito sozinha. Uma das suas brincadeiras preferidas é sair explorando os lugares, mas quando chove e não pode sair, ela se vê presa e impaciente dentro de casa e as coisas pioram muito porque seus pais trabalham o tempo inteirinho e não dão muita atenção para ela. Num desses dias de muita chuva e neblina, Coraline descobre uma porta em uma sala antiga que dá para o nada, para uma parede de tijolos. Pelo menos era isso o que ela achava até abrir a porta novamente e descobrir o Outro Mundo, uma realidade alternativa da vida dela.
Esse Outro Mundo é bem semelhante ao original, mas um pouquinho melhor, ainda que bizarro: apesar de as pessoas terem a pele muito branca e botões no lugar dos olhos, o lugar é muito mais colorido, vibrante e seus Outros Pais são carinhosos e atenciosos com ela e seus vizinhos são muito mais legais — e o melhor de tudo, pronunciam seu nome corretamente, rs. Mas vocês sabem que tudo o que é bom dura pouco, né? As coisas no Outro Mundo começam a ficar deveras assustadoras quando a Outra Mãe, que diz amar Coraline mais que tudo, quer manter a menina presa nesse lugar.
Meu primeiro contato com essa história foi através da adaptação Coraline e o Mundo Secreto. Lançada em 2009 e dirigida por Henry Selick, de O Estranho Mundo de Jack, é um dos mais longos desenhos de animação em stop-motion já realizados! Enquanto lia o livro, tive a mesma sensação sufocante de quando assisti ao filme, aquela vontade de entrar nas páginas e tentar deter a personagem, sabem? Por exemplo, quem em sã consciência entra em uma porta suspeita que momentos antes dava para uma parede dura de tijolos? Convenhamos que ter dado o primeiro passo, ter entrado pela porta, é a descrição perfeita para Coraline: curiosa e corajosa, uma combinação bem explosiva, diga-se de passagem.
— Porque coragem é quando você sente medo de fazer algo, mas faz mesmo assim, é quando você enfrenta o medo — respondeu ela. (p. 90)
A nova edição vem com uma introdução escrita pelo próprio autor, que revela detalhes muito interessantes sobre o livro. Eu amei descobrir que, inicialmente, o título do livro seria Caroline, mas ele digitou errado e acabou gostando do resultado. Essa informação é legal porque os vizinhos da menina vivem errando o nome dela. Outro ponto que chamou minha atenção foi saber que ele próprio morou em uma casa que foi dividida em vários apartamentos e que escolheu esse cenário para o livro para que não precisasse explicar para sua filha mais velha, para quem começou a escrever essa história, onde estavam as coisas.
O mais engraçado de tudo é que quando penso na minha infância, lembro de gostar de histórias assustadoras, assim como Holly, a filha do Gaiman. Só aí eu comecei a entender o porquê desse livro em específico fazer tanto sucesso: o que mais nos impressiona não são as cenas aterrorizantes ou a Outra Mãe que vai mostrando quem é de verdade com o passar das páginas, mas sim a personalidade de Coraline, dona de uma coragem que todos nós sonhávamos em ter — e que eu particularmente ainda sonho.
Além disso, Coraline deixa algumas reflexões. Vejam bem, a passagem abaixo é a minha favorita, porque deixa claro que nós, seres humanos, estamos sempre procurando algo que nos identifique, que prove que somos verdadeiramente importantes:
— Qual é o seu nome? — quis saber a menina. — Eu me chamo Coraline, tá?
O gato bocejou bem devagar, criterioso, revelando aos poucos uma boca e uma língua surpreendentemente rosadas.
— Gatos não têm nomes — disse ele.
— Não?
— Não. Vocês, pessoas, têm nomes. É porque vocês não sabem quem são. Nós sabemos quem somos, então não precisamos de nome. (p. 65)
E por falar no Gato, para mim ele é um dos personagens mais icônicos porque representa demais a infância. Não sei se isso é exatamente um spoiler, mas vou avisar por via das dúvidas porque vou falar sobre um detalhe da trama. O Gato tem livre passagem pelos dois mundos, ou seja, não existe Outro Gato. Ele é intrigante não só por isso, mas porque no mundo original ele é um gato comum, enquanto no Outro Mundo ele consegue falar. Isso é muito interessante porque estamos falando de uma protagonista muito solitária que trabalha muito com o imaginário, que dá "vida" às coisas. Óbvio que isso também nos faz questionar se tudo o que aconteceu no livro não foi a imaginação dela também.
Para finalizar, não poderia deixar de falar sobre a edição da Editora Intrínseca, que está bem caprichada: capa dura, fitilho e pintura trilateral roxinhos, combinando com as páginas internas, além de ilustrações maravilhosas de Chris Riddell que impressionou, inclusive, o próprio Gaiman.
Título Original: Coraline ✦ Autor: Neil Gaiman
Páginas: 224 ✦ Tradução: Bruna Beber ✦ Editora: Intrínseca
