Annabel Greene é aquela típica menina que todas as adolescentes sonham ou já sonharam em ser um dia: é deslumbrante, super popular, tira apenas notas altas na escola, vive em um ambiente familiar super agradável e a sua carreira de modelo não para de deslanchar. Justamente quando tudo estava o mais perfeito que se pode imaginar, Annabel é flagrada em uma festa com o namorado da sua melhor amiga Sophie. A partir daí, a protagonista passou a ser o novo alvo das crueldades de Sophie no colégio, além de ser julgada o tempo inteiro por todos os outros estudantes.
Ninguém sabe o que realmente aconteceu, mas todo mundo adora imaginar um monte de coisas. Pelo comportamento de Annabel, a gente sabe que tem alguma coisa errada, que o que aconteceu de verdade naquela noite está longe de ser o que todos pressupõe, porém a personagem está disposta a levar esse segredo para o túmulo. Não bastasse isso, Annabel tem que lidar com uma irmã anoréxica numa família onde não existem defeitos — e muito menos doenças —, e uma mãe paranoica que insiste em fazer as filhas seguirem uma carreira de modelo, mesmo que isso não seja o desejo delas.
Uma coisa que acabou me desagradando um pouco na personalidade de Annabel é a quantidade de mentiras que ela conta por não ter coragem de desafiar a sua mãe. Não sou a melhor pessoa do mundo para falar sobre isso, mas assim como eu, a protagonista gosta de evitar conflitos, então acaba encontrando nessas mentiras uma forma de contornar a situação, conseguindo agradar sua mãe sem deixar de fazer as coisas que realmente deseja.
— É que… Nem sempre digo o que estou sentindo.
— Por que não?
— Porque às vezes a verdade machuca – respondi.
— É — ele concordou. — Mas a mentira também. (p. 106)
Isso começa a mudar um pouco quando Annabel começa uma estranha amizade com Owen Armstrong, um menino calado, que gosta muito de música e se envolve bastante em brigas, apesar de estar tentando controlar seus impulsos raivosos. Como o seu lema da vida é sempre falar a verdade, independente de qualquer coisa, Owen acaba ensinando para Annabel, aos poucos, a driblar esse defeito. Obviamente há uma tensão sexual entre os dois, mas é tão sutil que consegui enxergar muita verdade no relacionamento dos dois.
Apesar do romance embutido na história, o enfoque do livro são os problemas familiares — que com certeza existem em várias famílias, mas muitas insistem em não enxergar —, o próprio segredo que Annabel carrega e como esse peso afeta a vida dela. Pela atmosfera do livro, não é difícil imaginar que algo muito sério aconteceu entre Annabel e o namorado de Sophie. Às vezes a gente se pergunta o porquê de as pessoas não contarem coisas que acontecem com elas, mas a verdade é que ela têm medo. Medo da pessoa, medo da reação da sociedade, medo de ser julgada... Isso é muito bem retratado em Só Escute, o que é um ponto muito positivo.
Não é atoa que Sarah Dessen se tornou um destaque na literatura jovem adulta e acredito que o seu sucesso seja consequência não só das suas ótimas tramas, mas também dos seus personagens maravilhosos. A autora consegue criar histórias verdadeiras que podem acontecer com qualquer um, até mesmo com a gente. É isso o que eu gosto de ler em livros do gênero, histórias reais sobre pessoas reais.
Eu já havia lido esse livro em 2014, uma edição da editora Farol Literário. Em minha releitura pude perceber duas coisas. A primeira é que fui muito mais empática com Annabel dessa vez e acredito que isso se deu por eu ter uma visão diferente sobre alguns dos assuntos retratados no livro, como, por exemplo, relacionamentos abusivos — e isso inclui família e amigos. Em segundo lugar, senti que a tradução de Alessandra Esteche ficou muito mais condizente com a "voz" da Sarah Dessen. Para quem é apaixonado por livros jovens adultos com histórias que transbordam de tão maravilhosas, Só Escute é a opção perfeita.
Título Original: Just Listen
Autora: Sarah Dessen
Páginas: 352
Tradução: Alessandra Esteche
Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora
