Se vocês acompanham o Roendo Livros, vocês sabem que a Ana, dona desse blog, adora um romance, dos levinhos aos +18. Já eu, Priscila, resenhista do Roendo, curto outros estilos, como fantasia, ficção científica e também sou uma amante dos clássicos. Então, eu tive uma ideia: pedi pra Ana escolher um romance, sem me contar qual, que ela já leu e gosta, dentre as muitas opções no catálogo da Intrínseca, para que a Editora me mandasse e eu pudesse dar a minha opinião.
Quando o pacote chegou, eu abri e me deparei com um livro todo colorido em tons pastéis (medo), o título é um pouco bobo, mas vale mencionar que o título original é Ghosts (um título bem mais robusto, mas falaremos disso depois), a sinopse revela uma protagonista na casa dos 30 anos (ufa) pronta para ter um relacionamento amoroso sério. Seu nome: Nina (um dos meus apelidos, uma coincidência legal). A autora: uma jornalista inglesa publicando sua primeira ficção após o sucesso de sua biografia, Tudo o que eu sei sobre o amor. Ok, promissor.
A narrativa é um pouco mais jovial do que eu imaginava no começo e Nina é engraçada de um jeito meio doidinho, o que me lembrou as comédias românticas dos anos 2000. O estopim para a história é o ghosting que Nina leva de um cara que ela conheceu num aplicativo de relacionamentos e que parecia perfeito para ela. Apesar de ser uma mulher bem sucedida profissional e financeiramente, Nina ainda se vê insegura quando o assunto é relacionamento amoroso, o que ilustra muito bem o quanto as mulheres têm seu valor avaliado com base em suas vidas amorosas apenas.
O ghosting em questão acontece lá pela página 170. Até esse momento a história estava bem morna. Apenas uma Nina deslumbrada com o homem intenso e low profile que ela conheceu pelo aplicativo, que diz coisas como "vou me casar com você" no primeiro encontro. Enquanto isso, o livro vai nos apresentando outros personagens, como a família de Nina, suas amigas e seu ex, com quem ela mantém uma relação próxima e amigável e que está prestes a se casar.
E, bem, é depois do ghosting que a história fica realmente boa, mas não pelos motivos que vocês possam estar imaginando. Acontece que também é nesse momento que o pai de Nina, Bill, começa a apresentar pioras em seu quadro neurológico. O pai de Nina tem apresentado sinais de demência após um derrame e suas memórias estão cada vez mais confusas, o que acaba fazendo com que ele se coloque em situações de risco. Isso causa problemas no casamento dele com a mãe de Nina, que também está vivendo um momento delicado de crise de identidade. A relação de Nina com a mãe também fica abalada, pois Nina não acredita que a mãe esteja fazendo um bom trabalho cuidando de Bill.
Achei muito interessante a forma como Nina incorpora isso ao seu trabalho. Nina escreve livros de culinária e sua ideia para seu próximo lançamento é unir culinária e memória, abordando como as nossas memórias afetam nosso paladar e nossas preferências, como o pai dela que volta a gostar de banana com leite condensado, uma de suas comidas favoritas da infância.
No fim das contas, Oi, Sumido, com esse título péssimo, se mostrou um livro profundo e delicado sobre amadurecer e envelhecer e sobre todos os fantasmas que surgem nesse processo, sobre as amizades que se perdem quando as escolhas de vida nos afastam, sobre ser difícil entender a dor do outro quando estamos imersos na nossa própria dor, sobre a cobrança que existe em cima das mulheres para constituírem família e estarem sempre dispostas e felizes com isso e sobre saudade.
O livro é cheio de diálogos intensos e discussões raivosas. É triste ver os personagens a beira do colapso psicológico, cada um a seu modo. Tem um confronto entre a Nina e a mãe dela em que a mãe diz: "Eu não quero ficar velha ainda, não estou pronta." e ela fala sobre como tem ido a mais funerais do que aniversários, do quanto ainda queria viver muitas coisas com o marido, mas a doença dele não para de avançar e é absolutamente devastador pensar em como amadurecemos e envelhecemos sem estarmos preparados para isso.
Inclusive, esse momento da mãe da Nina falando sobre não saber o que vai fazer depois que perder o marido me lembrou muito o discurso da Emily em Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar. Se você já assistiu a minisérie, você sabe do que eu estou falando.
Outra fala, dessa vez da Nina, que me impactou foi: "Tenho achado tudo muito difícil atualmente. E não consigo saber se esse é só um período complicado ou se a idade adulta é assim mesmo... só desapontamento e preocupação". SÉRIO, se você nunca pensou isso é porque você ainda não chegou na idade adulta.
A parte chata do livro é justamente o plot que está na sinopse. Todo o drama envolvendo o ghosting que a Nina leva do Max é completamente irrelevante se comparado com os outros assuntos que o romance aborda.
Enfim, fui surpreendida pela Ana. Achei que receberia romance clichê e ela me entregou crise existencial, o que é bem o meu estilo, já que eu amo dar uma choradinha com livros. Recomendo para todos. Sinto que a impressão que a edição dá, com sua capa coloridinha e seu título engraçadinho, não corresponde a 10% do que o conteúdo entrega. Ponto para o ditado: não julgue um livro pela capa.
Título Original: Ghosts ✦ Autora: Dolly Alderton
Páginas: 416 ✦ Tradução: Ana Rodrigues ✦ Editora: Intrínseca
