Não sou grande fã de ler biografias. Talvez seja ignorância minha, mas eu me entedio fácil e é difícil livros desse gênero conseguirem me prender. Por outro lado, sempre quis ler algo de Marcelo Rubens Paiva, em especial seu tão conhecido Feliz ano velho, mas, até agora, não tive oportunidade. Por isso escolhi Ainda Estou Aqui para resenha e, apesar do receio inicial que as tão temidas biografias trazem à minha vida, mergulhei inteiramente na leitura e o livro se tornou, desde já, inesquecível.

Marcelo Rubens Paiva tem uma narrativa não linear que envolve o leitor: em um momento, relembra sua infância cheia de brincadeiras e ainda não marcada pelos traumas; pouco depois, tenta rever determinado acontecimento pela perspectiva de seus pais; e, em seguida, tece reflexões aleatórias sobre o que entende hoje ter acontecido tanto tempo atrás, tudo em um mesmo capítulo. Essa construção pode parecer confusa, mas não é. É ela quem dá corpo a um texto que intercala memórias, reflexões e fatos, retomando as percepções do passado sob outro viés, a partir do entendimento presente. E as memórias, como bem destaca o autor, não seguem padrões.

A memória não é a capacidade de organizar e classificar recordações em arquivos. Não existem arquivos. A acumulação do passado sobre o passado prossegue até o nosso fim, memória sobre memória, através de memórias que se misturam, deturpadas, bloqueadas, recorrentes ou escondidas, ou reprimidas, ou blindadas por um instinto de sobrevivência. Uma fogueira no alto ajudaria. Mas ela se apaga com o tempo. E não conseguimos navegar de volta para casa.

Nesse mar de lembranças, Marcelo conta a história de seu pai, preso em janeiro de 1971, torturado e desaparecido na ditadura militar. Só mais tarde, décadas mais tarde, foi confirmada a morte de Rubens Paiva e esclarecidos os detalhes. O corpo nunca foi encontrado. Conta também a história de sua mãe, Eunice Paiva, presa e interrogada na mesma época, que teve que se reinventar e reconstruir após o desaparecimento do marido para cuidar de seus cinco filhos.

Mais do que tratar das crueldades e mentiras tecidas pela ditadura, confirmadas por transcrições de matérias jornalísticas e depoimentos reais, o livro demonstra a luta de Eunice para fazer a verdade ser reconhecida. Uma mulher que, para não se deixar abater diante de um sensacionalismo que queria mostrá-la frágil e oprimida pelo sistema, pôs um sorriso no rosto e foi à luta. Uma mulher que, depois de uma vida de tanto sofrimento, foi ainda diagnosticada com Alzheimer.


[...] É uma confusão recorrente de quem tem um parente com Alzheimer: falar dele no passado. Antes, eu sentia uma culpa sem fim por enterrar na conjugação verbal alguém que está vivíssimo e presente. Parecia um golpe do inconsciente, um lapso proposital, um desejo reprimido.
Quem tem Alzheimer em estado avançado está lá, mas não está, é a pessoa, mas não é. Pensa de uma forma peculiar; talvez tais pensamentos façam algum sentido, talvez ela tenha se acostumado com a confusão deles; ou talvez deixe de pensar, já que eles não se concluem.

O livro não é sobre uma coisa só: é sobre a ditadura, é sobre a perda de um pai, é sobre a infância, é sobre Alzheimer e sobre tantas outras coisas que fica difícil listar aqui. É sobre vida, afinal, e a vida não se resume a um aspecto apenas. Acho que foi essa forma de mostrar a complexidade de tudo que me fez gostar tanto do livro. Tratar de uma biografia de forma linear é desenhar a realidade de forma falaciosa, e Marcelo não fez isso. Ele fez bagunça com tantos temas e, sinceramente, a inconstância de suas reflexões me levou junto com ele nesse mergulho pelo passado.

Foi interessante ainda ver aspectos históricos e políticos do nosso país debatidos de maneira tão fluida, especialmente por se tratar de alguém que vivenciou aquilo. Para mim, que sou fascinada por História, em especial a do Brasil, percebi o livro como uma ótima oportunidade de compreender um pouco mais sobre essa época tão nebulosa que foi a ditadura, e a riqueza de detalhes é impressionante. Também pudera, Marcelo é jornalista, escritor e dramaturgo, e é nítido, pela quantidade de informações externas que trouxe para o livro, o quanto buscou a verdade sobre seu pai e sobre o regime.

Ainda Estou Aqui é sim uma biografia, mas não se contenta em narrar os acontecimentos da vida de alguém. A obra é rica em reflexões, estudos e contextualização política e, para aqueles que têm interesse em ler um relato realista e sincero sobre os mais diversos aspectos da vida, não tenham receio de apostar nesse livro.

Título Original: Ainda estou aqui

Autor: Marcelo Rubens Paiva

Páginas: 296

Editora: Alfaguara

Livro recebido em parceria com a editora
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