Não sei o que me fez querer ler Lua de Vinil, de Oscar Pilagallo. Não sei mesmo. Talvez o fato de contar uma parte da história do Brasil que eu pouco li em livros. Talvez o fato de parecer um livro despretensioso, ainda que tratasse do assunto sério como foi a ditadura militar. Mesmo sem saber o porquê, eu solicitei o livro, que não se mostrou um livro sensacional, mas que definitivamente estava bem longe do que eu imaginava.
O livro, que possui pouquíssimas páginas, conta a história de Giba (ou Giges, se preferir), um adolescente como a maioria: desligado e despreocupado, que gasta a maior parte do seu tempo de boas. As primeiras páginas contam apenas o nada que afigura-se a vida do garoto, e descreve coisas que não parecem ter relevância alguma, como o cabelo de esfregão, a origem de seu apelido, as características de seus vizinhos de prédio e o tal disco do Pink Floyd.
The lunatic is in my head... Meu inglês não era lá essas coisas, mas essa parte da letra do Roger Waters dava para entender. "O lunático está na minha cabeça." Eles cantavam para mim. Não gostava quando minha mãe me chamava de lunático. Mas o Pink Floyd não soava como crítica. Eles cantavam num tom, sei lá, solidário. E depois o cara da música não era lunático; o lunático é que estava na cabeça dele. É diferente.
Com o decorrer da história, no entanto, o autor consegue mostrar que a indiferença de Giba é, na verdade, um modo de se proteger, tanto da dor de ter seu pai internado e da certeza de que ele não voltará para casa, quanto dos problemas e inseguranças da própria adolescência. Em determinado momento, Giba precisa também lidar com seus próprios dilemas morais, o que o faz, finalmente, amadurecer.
Quando li na sinopse que o protagonista "se vê obrigado a lidar com um dilema moral que o fará abandonar a inocência dos dezesseis anos para sempre", considerando o contexto da ditadura militar, imaginei que o garoto se meteria em problemas sérios com a justiça. Só que não cheguei nem perto de imaginar o que realmente aconteceria, especialmente porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. E isso, por si só, já foi uma grande surpresa durante a leitura.
Ainda que o dilema inicial não estivesse relacionado à situação política vivida na época, não foi menos interessante acompanhar as consequências das decisões de Giba e sua forma de lidar com os problemas que criou. Achei curiosa a forma como o autor conseguiu dar corpo ao embate mental que Giba travou consigo mesmo e torná-lo um monólogo interessante de ser acompanhado.
Não sei por quanto tempo permaneci estirado no chão, um réptil inerte e frio. Deve ter sido um átimo. Mas hoje ao tentar reconstituir o que ocorreu três meses atrás, sinto como se o tempo tivesse desacelerado naquele instante, se arrastado tão devagar que, quanto eu despertasse do transe, haveria tanto pó sobre o meu corpo quanto no carpete do quarto, sujo havia meses.
Também, mesmo que a ditadura militar não fosse a responsável direta pelos problemas do protagonista, ela se fez presente e teve um papel fundamental no amadurecimento do personagem. Isso porque, quando Giba deixou de lado o conforto de seu quarto e dos muros de seu condomínio e percebeu o que realmente acontecia lá fora, ele precisou tomar uma decisão sobre quem desejava ser, e acho que não poderia ter tomado decisão melhor.
Lua de Vinil não será, para mim, um livro memorável, mas preciso admitir que fiquei vidrada enquanto fazia a leitura. Mesmo naquele mundo bobo e alienado de Giba, senti-me impulsionada a saber o que aconteceria, e fui bem recompensada por isso.
Título Original: Lua de Vinil
Autor: Oscar Pilagallo
Páginas: 168
Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora
