Eu não me interessei por Vox logo de cara, tanto que só fui solicitar um tempo depois do lançamento. Eu vi a Denise do Seja Cult falando do livro no Instagram e me bateu uma curiosidade enorme, afinal, é uma distopia que pode realmente acontecer: as mulheres, uma minoria social declarada, irem perdendo os direitos até poderem falar apenas 100 palavras por dia. É assustador, não é? Mas essa é a premissa da história criada por Christina Dalcher, onde o governo dos Estados Unidos lança esse decreto macabro logo após as eleições democráticas.
Tudo aconteceu de maneira rápida e inimaginável. Quando a população dos Estados Unidos elegeu um governo de extrema-direita super conservador, ninguém imaginava que as minorias — mulheres, homossexuais, negros... — perderiam seus direitos (ou pelo menos fingiam que não imaginavam, rs). Todas as mulheres estão em negação e não podem fazer muita coisa, então, quando a Dra. Jean McClellan, uma neurologista de sucesso na época em que podia trabalhar, é convocada pelo governo para trabalhar em um projeto para curar o irmão do presidente que tem afasia (um distúrbio de linguagem que afeta a capacidade de comunicação da pessoa), ela vê uma oportunidade de voltar a dar voz à todas as mulheres que foram silenciadas.
Imagino que as outras mulheres fazem. Como elas lidam com isso. Será que ainda encontram alguma coisa para curtir? Será que ainda ama os maridos como antes? Será que os odeiam, nem que seja só um pouquinho?
Preciso ser sincera com vocês: eu senti muito, muito ódio enquanto lia esse livro. Primeiro porque me doeu demais ver todas as mulheres sem um pingo de direito e apoio, vivendo em um ambiente tão misógino e machista. O filho mais velho de Jean, por exemplo, é o desenho do homem hétero machista da atualidade — e eu só fiquei pensando que deve ser muito triste criar um filho com tanto amor pra toda vez que ele abrir a boca sair tanta merda, com o perdão da palavra. E segundo porque, apesar de extremista, não é uma realidade distante. Quer dizer, quantos pontos em comum entre a ficção e a realidade vocês conseguem listar só de ler essa resenha? Então Vox não é uma leitura fácil, principalmente para uma mulher com os ideais como os meus.
Apesar de o enredo ser sensacional e mostrar muitas coisas críveis, eu acho que Christina Dalcher acabou comprometendo a história com algumas escolhas, que é eletrizante no começo, mas vai perdendo sua força. Da metade do livro para a frente, as coisas simplesmente param de acontecer para, no final, a autora correr e enfiar goela abaixo do leitor várias soluções sem pé nem cabeça, como se ela tivesse esquecido o propósito do livro. Senti falta de muitas informações sobre o governo, sobre como as coisas chegam no ponto que chegaram e tudo mais, mas ao mesmo tempo tiveram várias coisas podiam ter ficado de fora da obra. Também achei que os personagens secundários, como o marido da Jean, por exemplo, foram muito mal aproveitados.
A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada.
Agora, preciso desabafar um ponto que me deixou muito incomodada a leitura inteira, e para isso serei obrigada a soltar um spoiler gigantesco. Então, se você tem intenção de ler esse livro ou simplesmente odeia esse tipo de coisa, salte esse parágrafo. Acontece o seguinte: Jean trai o marido desde o início da história e eu achei que o fato foi retratado como se a personagem estivesse certa nas atitudes dela. Ela não ama mais o marido, não pode se separar por causa das leis do governo, mas quem me conhece sabe que eu não concordo com esse tipo de atitude. Além do mais, eu não vi nenhum motivo para Jean não ter se separado de Patrick antes do atual regência, o que me deixou mais brava ainda. Além disso, o final que a autora deu para os dois só me deixou mais incomodada e com mais sensação de que "ok, está tudo bem trair uma pessoa, já que você não a ama mais". Gente, por favor, trair não é nem um pouco legal, empatia não é pra guardar no bolso e usar só quando convém, né...
Vox é interessante por expor o feminismo — mesmo com algumas atitudes super erradas da protagonista que contrariam e deslegitimam todo o movimento —, e o perigo de colocar pessoas erradas no poder, mas eu esperava uma trama bem mais política e menos romantizada. O final também não me agradou nem um pouco, muito forçado e abrupto. Não sou uma escritora, mas acredito que se a autora tivesse escrito mais umas 30 páginas, conseguiria um desfecho infinitas vezes mais satisfatório. Ainda assim é um livro que vale a leitura, um aviso descarado para continuarmos lutando para que nenhuma mulher seja silenciada.
Título Original: Vox
Autora: Christina Dalcher
Páginas: 320
Tradução: Alves Calado
Editora: Arqueiro
Livro recebido em parceria com a editora
