As irmãs Tessaro, Serina e Nomi, vivem em Viridia, um reino onde as mulheres não têm nenhum direito. Não podem ler, escrever, estudar e fazer qualquer tipo de atividade que fuja de trabalhos domésticos ou cuidar dos filhos. Nesse contexto, onde as mulheres existem exclusivamente para servir, o superior escolhe três Graças — jovens treinadas em suas comunidades para serem bonitas, educadas e, principalmente, submissas — a cada três anos para servi-lo. Serina treinou a vida inteira para ser a Graça perfeita, enquanto Nomi nunca aceitou as regras que existiam para ela unicamente por causa do seu gênero.

No ano em que Serina foi enviada ao castelo para concorrer a uma vaga, o herdeiro escolheria suas primeiras Graças. Apesar de corresponder à todas as expectativas, por uma reviravolta do destino, sua irmã Nomi — que seria sua aia — é a escolhida. Não bastasse isso, devido a um ato de rebeldia de Nomi, Serina é pega com um livro na mão e, mesmo não sabendo ler, acaba sendo enviada a uma prisão para mulheres rebeldes, que fica em uma ilha dominada por homens. A partir daí, as duas protagonistas buscam se adaptar a uma vida que nenhuma delas desejou. 

Graça e Fúria é narrado em terceira pessoa sob o ponto de vista de Serina e Nomi, em capítulos alternados. Como cada personagem está inserida em um contexto diferente, é como se estivéssemos lendo dois livros em um — sacada que pode ser atrelada, inclusive, a capa do livro, que mostra uma irmã de cada lado. A história das duas é deveras interessante, mas o que mais surpreende é o que Tracy Banghart fez com cada uma. Se no começo Nomi era a minha favorita, a partir da metade do livro o jogo virou, trazendo uma Serina totalmente forte e empoderada, nada daquele ser submisso do início da trama. 

Nomi continuou questionando o espaço da mulher na sociedade, mas em um comparativo com sua irmã, a personagem não se desenvolveu da forma que eu esperava. Acho que grande parte dessa impressão se deu pelo pouco romance que aparece no livro. Apesar de não ser o foco em nenhum momento, não me agradou muito. Aí vem um spoiler: Nomi se envolve com o irmão mais novo de Malachi, o herdeiro, mas sabe quando um personagem não desce de forma alguma, como se você soubesse que existe alguma coisa errada com ele? Pois é... Daí você pode imaginar o que acontece. 

— Acho que muitas mulheres nesta prisão, neste país, vão se rebelar um dia. Meu pai costumava dizer que a opressão não é um estado final. É um peso que se carrega até que não se possa mais. E então ele é removido. Não sem esforço, não sem dor [...] 

Apesar de Serina e Nomi serem as personagens principais, existem várias outras mulheres que lutam contra a sociedade patriarcal criada por Tracy Banghart, mas que é o retrato da nossa própria sociedade. Então, o que realmente chama atenção em Graça e Fúria é o protagonismo das mulheres, que se mantêm fortes e unidas apesar de toda a repressão. O engraçado é que a medida que a história vai passando, a gente percebe que os homens, na verdade, têm tanto medo das mulheres e da força delas que se torna necessário controlá-las e reprimi-las. 

Graça e Fúria, apesar de ser uma fantasia voltada ao público juvenil, tem um lado sombrio que pode incomodar alguns leitores. Enquanto acompanhamos a realeza pelos olhos de Nomi, com toda a riqueza que apresenta, do outro lado tem a Serina, que está vivendo em um ambiente brutal, onde as mulheres lutam umas com as outras até a morte para conseguir o mínimo de comida. Banghart conseguiu trabalhar esses dois lados muito bem.

No final do livro, que é bastante introdutório, há um plot twist que, sinceramente, se você for calejado como eu, vai sacar logo de cara. Eu já sabia o que ia acontecer há muito tempo, e o pior é que a gente fica querendo abrir os olhos da personagem que não enxerga de forma alguma o óbvio. Ao mesmo tempo, do outro lado da história, acontece uma coisa maravilhosa que mostra que realmente, ninguém consegue segurar um grupo de mulheres que luta unido. Ah, as últimas páginas são inacreditáveis, dá vontade de morrer de tanto desespero. 

A trama de Banghart tem muitos clichês, muitas coisas que já vimos em vários outros livros, mas ainda assim ela soube trabalhar os elementos de uma forma coesa. A luta pela igualdade de gênero está muito presente, aspecto muito importante e que traz muitas reflexões. Graça e Fúria é a típica história que começa bem, mas que se desenvolvida da forma correta, tem potencial para se tornar inesquecível e incomparável. 

Título Original: Grace and Fury

Autora: Tracy Banghart

Páginas: 304

Tradução: Isadora Próspero

Editora: Seguinte

Livro recebido em parceria com a editora